tSabrina Noivas 51 - Spring Bride
 
Um encontro tumultuado... Um beijo ao anoitecer!
"A herana que recebi de meu pai me permitiu ser independente aps anos sendo tratada como a princesa caula. Mas descobri que a independncia tambm traz seus problemas. Agora que estou em apuros, Antnio Rodrigo Cordoba dei Rey est disposto a me ajudar... mas claro que terei de pagar um certo preo! Ele quer possuir meu corpo, meu corao e minha alma. Meu orgulho no me deixa ligar para minha famlia para pedir ajuda, mas, se eu sucumbir aos termos de Antnio, sei que nunca serei livre novamente, pois ele  o tipo do homem que voc no esquece.  o tipo que voc leva para o altar!"

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
  Publio original: 1996 
Gnero: Romance contemprneo   
Estado da Obra: Corrigida

Srie Landon's Legacy
Orderm	Ttulo	Ebooks	Data
1	An Indecent Proposal
	Apr-1996

2	Guardian Groom
	May-1996

3	Hollywood Wedding
	Jun-1996

4	Spring Bride
Sabrina Noivas 51 - Direto Para o Altar	Jul-1996



PRLOGO

Ela no era o tipo de mulher que Antnio Rodrigues Crdoba del Rey consideraria atraente mas, por alguma razo, no conseguira tirar os olhos dela durante quase todo o jantar.
Loucura, pensou Antnio, franzindo o cenho. Pensando bem, no h absolutamente nada ali para ser admirado.
Era alta e esbelta, magra demais para o gosto dele, apesar de ter de admitir que o contorno dos seios e a curva dos quadris por baixo do vestido preto de seda eram at interessantes.
No poderia ser o bronzeado de sua pele. Ele preferia muito mais as loiras de olhos azuis com pele branca como creme. Aquela mulher tinha a pele dourada pelo sol e olhos to acinzentados que eram quase da cor da prata. Os cabelos eram curtos e ruivo escuros e, quando ela balanava a cabea, caam sobre o rosto em forma de corao, cobrindo-o.
Havia at algo nas maneiras da mulher que o desagradava. O modo como erguia o queixo, o sorriso educado que parecia estar congelado em seus lbios... Antnio conhecia aquele tipo de mulher. Por baixo da pele dourada e dos cabelos de fogo vivia uma princesa de gelo, repleta de dio e desprezo.
Lembrava uma daquelas mulheres, em museus, que tinham nos ps aquelas placas avisando ao pblico que podiam olh-las, mas no toc-las.
Ela lembrava uma poca em sua vida que ele achava que havia esquecido...
Antnio observou o acompanhante da mulher. Era bvio que ele se considerava um dos privilegiados que eventualmente poderiam tocar a esttua. Podia-se notar isso pelo modo como a bajulava durante todo o coquetel que precedera o jantar e agora durante a refeio. E ela nem sequer fingia estar interessada no que ele lhe dizia.
Alis, ela no fingia absolutamente nada. Deixava claro que estava entediada com o evento de caridade, entediada com os companheiros de mesa, entediada com o acompanhante a seu lado...
No que aquele tipo de atitude fosse surpreendente. Mulheres da classe dela quase sempre agiam daquele modo, especialmente quando sabiam que eram bonitas e desejveis.
	Aqui estou  ela parecia dizer ao mundo , e vocs tm muita sorte, no ? S no esperem que eu sinta o mesmo, ou sequer finja que sinto...
	Antnio?
Ele observou o acompanhante dizer algo a ela e sorrir. Era um sorriso nervoso, percebeu Antnio. Ela certamente perceberia tambm, veria que o homem precisava de um pouco de segurana, um sorriso ou uma palavra amigvel.
Em vez disso, ela apenas ergueu os ombros elegantes, fazendo um biquinho quase imperceptvel.
	Antnio? Estou falando com voc.
Que tolo era aquele homem! Ficava rodeando-a como um poodle pedindo ateno. Por que no se levantava e ia embora?
Havia um meio simples de colocar uma mulher como ela em seu devido lugar. Um homem tinha de despi-la da insolncia fria e reduzi-la ao que realmente era, carne e desejo.
. Era o que ele faria. Abraaria aquela mulher e a beijaria at que os lbios desdenhosos estivessem ardendo de desejo, levando-a depois para seu avio e,  vinte mil ps de altura, na privacidade da cabine escura, tiraria o vestido preto do corpo esbelto e a possuiria at faz-la entender que era uma mulher e no um smbolo inatingvel...
	Antnio! Qual o problema?
Uma mo graciosa pousou em seu brao. Antnio piscou, tentando esquecer as imagens que lhe vieram ao crebro.
	Susana  disse, e tentou sorrir para a mulher sentada a seu lado. Ela tinha cabelos loiros e olhos azuis, tinha todas as qualidades que ele apreciava em uma mulher, e no momento o encarava como se ele estivesse louco.
Antnio respirou fundo. Talvez estivesse mesmo louco. S um louco perderia tempo fantasiando tolices sobre uma princesa de gelo com uma mulher ae sangue quente sentada a seu lado.
	Querida  disse com suavidade, segurando a mo de Susana.  Desculpe-me. Meus pensamentos estavam  quilmetros de distncia
A loira sorriu, mas o sorriso no chegou aos olhos sombrios.
	Mesmo? No achei que a ruiva do outro lado do salo estivesse to longe.
	Que ruiva?  disse Antnio sorrindo.  Eu estava pen sando em voc.
Ela pareceu relaxar.
	Por um momento pensei que houvesse esquecido de mim.
	E a mar esqueceria da lua?  Aproximando-se mais dela, ele murmurou:  Eu j fiz minha obrigao. Representei meu pas na abertura do Festival de Danas Folclricas de Denver. Acha que seria indelicado se partssemos e fssemos a um lugar mais reservado?
Dizendo aquilo, ele levantou-se e estendeu a mo para Susana.
Imediatamente sentiu que a ruiva o observava. Sentiu o corpo incendiar, mas no demonstrou absolutamente nada. Despediu-se das pessoas  mesa, beijando a mo de cada dama e apertando as mos dos cavalheiros.
Ento, e s ento, como se fosse um presente que estivesse preparando, ele pegou o brao de Susana, virou-se e encarou a princesa de gelo diretamente nos olhos.
Sentiu-se como se tivesse levado um soco no estmago. Uma onda de calor invadiu seu corpo. O desejo dominou-o por completo, fazendo com que tudo mais desaparecesse, somente havia ele, ela e a urgncia de...
A mulher contraiu os lbios, levantando o queixo e olhando em outra direo. De repente, Antnio sentiu-se como se no estivesse vestido com o smoking que usava, mas sim com uma camisola e as botas de trabalho que usara por tantos anos...
	Antnio, est me machucando!
Ele olhou para baixo, surpreso ao notar como seus dedos apertavam o pulso de Susana. Soltando-a, ele desculpou-se rapidamente, passando o brao ao redor de sua cintura, guiando-a atravs do salo, no em linha reta, mas de um modo que passaria diretamente ao lado da mesa onde a mulher de olhos prateados e cabelos da cor das folhas de outono estava sentada.
Quando chegou ao lado da mesa, deixou Susana seguir  frente e parou, notando a surpresa nos olhos da mulher enquanto ele se abaixava e dizia educadamente:
	Sehorita, voc por acaso fala espanhol?
Ela o encarou, os olhos arregalados. Aps um breve momento, aquiesceu.
Antnio sorriu, aproximou a boca de seu ouvido e disse, num sussurro em espanhol:
	Sente-se enojada por desejar um homem como eu?
Ela pulou na cadeira, surpresa, e ele riu.
	Talvez se sinta melhor ao saber, sehorita, que eu preferiria fazer um voto de castidade do que levar uma mulher como voc para minha cama.
Ele endireitou o corpo, acenou educadamente para os outros da mesa e saiu rapidamente atrs de Susana.
Kyra Landon sentia-se como se algum houvesse jogado um balde de gua gelada em sua cabea.
O mundo estava cheio de loucos. Aos vinte e dois anos e apesar dos esforos do pai para mant-la em uma redoma de cristal, ela j conclura aquilo.
Mas nunca antes conhecera algum to louco quanto o homem que acabara de falar com ela.
	Kyra?
Olhou para Ronald, que a encarava com o cenho franzido. As outras pessoas da mesa tambm a encaravam. Oh, meu Deus, pensou, corando ainda mais, se algum deles falar espanhol...
	O que aquele homem lhe disse, Kyra?
A esposa do crtico de artes inclinou-se para frente.
	Deve ter sido algo incrvel  disse curiosa.  Veja s como voc est ruborizada!
	Claro que foi algo incrvel  interveio a namorada do bailarino principal.  Um homem to lindo no diria nada que no fosse incrvel. Estou certa, srta. Landon?
Kyra limpou a garganta.
	Por acaso... algum de vocs fala espanhol?  perguntou, cruzando os dedos.
O bailarino suspirou. 
	Estudei espanhol no colgio, mas no lembro nada alm de "te amo".
Todos riram. Kyra sentiu o corao voltar a bater.
	 Escute, se aquele homem a insultou...  O queixo de Ronald tremia.  Se ele fez isso, eu...
	jsfo	disse Kyra rapidamente, colocando a mo no brao dele, tentando evitar uma confuso.  No, ele no me insultou de modo algum.
Ronald no parecia convencido.
	O que disse, ento?
	Ah, ele disse... pediu-me para dizer ao organizador da festa que o novo centro  magnfico, pediu desculpas por no poder ficar para a apresentao do bale e que o jantar estava esplndido.
	Era mexicano?  perguntou a mulher do crtico.
	No, espanhol.
	Como sabe disso? Ele lhe disse?  indagou Ronald, ainda desconfiado.
	No, claro que no. Mas o espanhol dele no era mexicano, era de Madri, creio. Estudei essa lngua na escola, e...
"Estou fazendo o papel de idiota", pensou ela. Mas, de qualquer modo, j era um milagre que conseguisse dizer qualquer coisa, considerando que um total estranho, que passara metade da noite despindo-a com os olhos, ousara lhe falar daquele modo...
	No concorda, Kyra?
Kyra piscou, confusa.
	Concordar com o qu?  perguntou, olhando para a namorada do bailarino. 
	Disse qu um homem daquele tamanho nunca poderia ser mexicano. Tinha no mnimo um metro e oitenta de altura, e todos aqueles msculos...
Tinha mais de um metro e oitenta, pensou Kyra. No mnimo, um e oitenta e cinco. E certamente era muito musculoso. Podia se notar atravs do smoking. Nunca vira um homem com os ombros to largos, pernas to longas...
A verdade  que era o homem mais bonito que j vira. No que tivesse aquele rosto de ator de cinema. No era uma beleza convencional, mas ainda assim era lindo: olhos azuis como o cu, clios negros, uma boca grande e sensual e queixo quadrado.
Ela o notara havia pelo menos uma hora. Vrias mulheres o notaram, ela percebera o modo como o olhavam. Mas, antes, para sua surpresa, sentira os olhos dele sobre si durante o coquetel. Queria virar-se, ver se estava imaginando coisas, mas no o fizera. Ele era msculo demais, arrogante demais, um homem que parecia pensar ser o dono do mundo.
Alm disso, seria rude com Ronald, se encarasse o homem alto. Ele estava fazendo o que podia para entret-la, mas seus pensamentos estavam em casa, com o pai. Charles estava doente h meses e naquele dia parecia pior que de costume.
Ainda assim insistira para que uma Landon comparecesse  inaugurao do Centro de Artes.
E, quando ele insistia, pensou Kyra contraindo os lbios, tentar argumentar era forar uma discusso.
Ronald tirou-a de seus devaneios para gui-la at o auditrio. A apresentao de dana ia comear.
Kyra tentou prestar ateno ao nmero, mas seus pensamentos teimavam em voltar ao que acontecera no jantar. Se pelo menos no houvesse olhado para ele! Tentara no olhar, apesar de saber que ele a encarava. Finalmente cedera  tentao e, quando o fizera...
Deus, o brilho de desejo nos olhos azuis fez seu corao dar saltos no peito e sentir uma urgncia to primitiva que ficara mortificada e aterrorizada com a possibilidade de haver demonstrado seus sentimentos. E ele notara. Por isso dissera aquilo para ela.
Kyra levantou-se e Ronald olhou-a, surpreso. Ela sorriu e disse baixinho que tinha de ir ao toalete.
O que estava acontecendo com ela? Pensar que um homem como aquele a atrairia era ridculo. Se ela fosse se interessar por algum, certamente no seria por um homem que saa por a fazendo questo de demonstrar sua masculinidade.
Mas, mesmo assim, quando sentiu uma mo tocar em seu ombro e uma voz masculina chamar seu nome, Kyra virou-se com o pulso disparado.
Mas no era ele e sim o gerente do Centro de Artes.
 Srta. Landon  disse ele com suavidade.  H uma ligao para a senhorita em meu escritrio. Temo que no seja boa notcia.
Kyra entrou em pnico. Conseguiu acenar, sorrir educadamente e andar na direo que ele havia indicado. Sabia antes mesmo de chegar ao escritrio, quem estava ligando e por qu.
Era o mdico da famlia que ligara para dizer que seu pai, Charles Landon, estava morto.

CAPITULO I

Era uma manh perfeita, que nem parecia preceder o inverno glido do Colorado. O cu de outono estava to azul que quase conseguia suavizar as tenebrosas Unhas da manso Landon que dominava o topo da colina.
Kyra suspirou, sentada em um banco com vista para o vale abaixo da casa. As belssimas aves da regio, j estavam voando em direo ao sul. Os potros nascidos na primavera brincavam alegremente no prado, observados pelos pais que pastavam placidamente.
Kyra sorriu. Era aquilo que fazia a vida na manso suportvel: a manada de elegantes cavalos da raa Morgan, a magnfica paisagem, a vista para as Montanhas Rochosas... Era l que seu corao sempre estivera e no na casa no topo da colina, casa que agora era sua.
Virando-se e colocando as mos nos bolsos do jeans, Kyra subiu a trilha em direo  casa.
Houve um tempo em que ela se perguntava por que o pai teria construdo algo to feio. Os irmos diziam que Charles via as pedras e os vidros como ostentao de sua riqueza. Mas aquele no deveria ser o verdadeiro motivo. Havia casas nas montanhas que certamente teriam custado uma fortuna, mas ainda assim eram lindas.
Finalmente ela entendera. Charles nunca se preocupara com a parte esttica da casa, quisera sim, algo que refletisse, mesmo inconscientemente, o prprio dono: ostentao sem substncia, sem alma nem corao.
Charles no sabia nada sobre almas e coraes, nem mesmo em tratando da prpria filha.
Kyra suspirou. Parecia-lhe impossvel que houvesse passado a vida vivendo uma mentira.
	Voc  a nica que nunca me desapontar, meu anjo dissera Charles, at o fim.
Mas ela o havia desapontado, virtualmente todos os dias de sua vida, pois no fundo do corao, onde realmente importava, nunca fora o anjo que ele imaginava.
Sua vida comeou a mudar logo aps a morte da me. Kyra no se lembrava de EUen Landon, que morreu quando a filha ainda era muito pequena. Tudo o que sabia era que de repente passara a ser o centro da existncia do pai.
	Minha pequena dama  ele dizia, pegando-a no colo. Voc  a alegria da minha vida!
Mas se ela era a alegria, os irmos eram a tortura. Charles no tinha pacincia com os meninos. Tratava Cade, Grant e Zach com uma frieza que se aproximava de crueldade. At aquele momento, Kyra no conseguira entender por qu. S sabia que, desde pequena, descobriu que tinha o poder de acalmar o pai, evitando que brigasse com os irmos.
Ento ela se transformara na filha perfeita...
Os irmos nunca desconfiaram de nada. Pelo que sabiam, ela era apenas uma doce garotinha de temperamento dcil que nunca percebera como o pai realmente era.
Kyra continuou caminhando em direo  casa, ainda perdida em pensamentos. Nunca desejara interpretar aquele papel por tanto tempo. Assim que os irmos cresceram e se mudaram, ela tentara se libertar do domnio do pai, mas Charles comeou a mostrar sinais de uma sade frgil, e ela no pde partir.
Como poderia abandon-lo quando mais precisava dela? Apesar de todos seus terrveis defeitos, era seu pai, e certamente ele a amava.
O barulho dos saltos de suas botas ecoou pela casa enquanto se dirigia  cozinha para tomar uma xcara de caf.
Bem, no havia nada que a prendesse l agora. O pai partira. Os irmos j haviam retornado s vidas normais. Era hora de pensar em si mesma. Mas o que queria fazer? Arrumar um emprego? Uma carreira? Um diploma universitrio?
No tinha a mnima ideia. S sabia que tinha de fazer algo, algo que ela prpria escolhesse, sem ningum aconselh-la: nem mesmo os irmos.
No que no os amasse. Amav-os de todo corao. Fora timo rev-los durante o funeral do pai, mas s servira para lembr-la que, na opinio deles, ainda era uma criana.
Cade passava cada momento dizendo-lhe o que fazer, muito docemente  claro. Zach perguntava mais de cem vezes se ela no queria que cuidasse das contas da casa. E Grant s faltava passar a mo em sua cabea e cham-la de boa garota.
Quase ficara louca, mas aguentara tudo; at a leitura do testamento. Sabia que fora o testamento que a tirara do srio.
Charles deixara a fortuna pessoal, a manso e todo o terreno para Kyra, e a Landon Enterprises, o imprio multimilionrio, para os filhos.
Kyra ficara furiosa. O pai conseguira novamente, pensou com amargura. At na morte ele conseguira deix-la de fora do mundo real.
Assim que o advogado partiu, os irmos tambm se foram, lanando-lhe sorrisos benevolentes e enfatizando o quo felizes estavam por ela ter ficado com a casa.
 Sabemos como ama este lugar, princesa  dissera Grant, abraando-a.
E, antes que ela pudesse dizer: no, eu odeio esta casa, ele virou-se para Cade e Zach e comeou a discutir o modo mais rpido de se livrarem da Landon Enterprises. Eles no queriam ficar com o que lhes fora deixado, mas ela, ela devia pular de alegria pela parte que lhe cabia! Ficara furiosa, revoltada e incrdula com a atitude dos irmos. No podia, no ia continuar sendo tratada como uma criana! No aceitaria a vida que lhe impunham, participando de comits idiotas por causas nas quais ela sequer acreditava, indo a jantares tediosos em que tinha de sorrir o tempo todo e fingir que estava se divertindo...
... c onde um homem como aquele espanhol podia dizer as coisas que dissera a ela e ento desaparecer como por encanto.
Bateu a xcara de caf no mrmore da pia.
Aquele homem? Que diabos a fizera pensar nele? No que fosse a primeira vez. Gostasse ou no, o homem estivera vagando em sua cabea h dias.
Bem, aquilo era compreensvel. No era fcil esquecer um cretino pretensioso e convencido.
Impaciente, ela se levantou e colocou a xcara na pia. E pensar que ela deixara que se safasse...
Por que no lhe dissera que era um otrio? Em espanhol,  claro. Por que no insultara aquele rosto to bonito e insolente?
"Voc  um animal, poderia ter dito. Um verme, um nada..."
S que ele no era nada daquilo. Esse era o problema.
Era o homem mais atraente que j vira e ele sabia disso. Por esse motivo, pensava que podia sair-se bem ao encarar uma mulher daquele modo e ento insult-la...
	Ol! Algum em casa?
Kyra virou-se, surpresa.
	Cade?
	Kyra?
Ela correu at a porta abraando o irmo, que riu.
	Isso  o que um homem deseja  disse, levantando-a.	Uma recepo que o faa sentir-se bem-vindo.
	Que surpresa maravilhosa! Mas por que no ligou para avisar que vinha? Teria ido busc-lo no aeroporto.
Era sua imaginao, ou o sorriso em seus lbios se desvaneceu antes de responder?
	Bem, foi uma deciso repentina. De qualquer modo, achei que no precisasse fazer um pronunciamento formal de minha chegada agora que o ve... quer dizer, que papai no...
	Claro que no precisava  Kyra enlaou-o pelo brao. 	Ser sempre bem-vindo, onde quer que eu more.
Cade sorriu.
	Obrigado, Kyra.
	Por que est me agradecendo?  Ela o beijou ruidosamente na bochecha.  Amo voc, seu bobo. Agora me conte tudo sobre o Texas enquanto eu preparo algo para voc comer.
	Para dizer a verdade, no estou com fome.
	Caf, ento. Vou fazer caf fresco enquanto me conta sobre Dlias.
Agora no havia dvida, o sorriso dele realmente se dissipara.
	No h nada para contar.  s uma cidade.
	Bem, conseguiu fazer tudo o que precisava? A companhia de leo estava to ruim quanto imaginava?
	Sim  disse Cade, em tom neutro.  Estava uma baguna. Graas a...
	Graas ao "velho", no ?  Kyra afagou-lhe a mo. Tudo bem que chame papai assim. Para dizer a verdade,  como eu geralmente pensava nele.
O rosto de Cade transformou-se em uma mscara de gelo.
	O que quer dizer? Ele a tratava mal?
Kyra hesitou. Aquela era a hora de contar-lhe tudo, de dizer que havia muitas maneiras de tratar algum mal, que ficara presa em uma jaula de ouro toda a vida...
Mas Cade parecia to cansado. E havia uma sombra em seus olhos que ela nunca vira antes.
Esforou-se para sorrir.
	No, claro que no. Eu era o anjo de papai, lembra-se?
Cade soltou a respirao.
	Sim.  Sorriu e olhou para as escadas.  Irmzinha, importaria se eu descansasse um pouco? Estou exausto.
	Claro que no. Suba e durma um pouco.
	E voc tambm deveria descansar. Est plida e com aspecto cansado. Tem tomado vitaminas?
	Cade  disse Kyra gentilmente.  Faa-nos um favor. No pense por mim, est bem?
Era s uma brincadeira, mas o rosto de Cade sombreou-se de raiva.
	O que  isso?  perguntou rudemente.  O novo grito de batalha feminista?
Kyra piscou, surpresa. O que quer que houvesse acontecido em Dlias, no era nada bom.
	Voc realmente precisa descansar  disse calmamente, beijando o rosto perturbado.  Podemos conversar quando estiver recuperado.
Ele suspirou, sorrindo sem vontade.
	Boa ideia.  Retribuiu o beijo, subindo a escada lentamente.
Quando ouviu Cade levantar-se, Kyra foi at a cozinha e comeou a preparar algo para comerem.
Havia pensado muito nas ltimas horas e decidira que deveria aconselhar-se com Cade sobre o futuro. Se algum podia ajud-la, esse algum era o irmo, pois ele tambm mudara de vida, jogando fora sua carreira de engenheiro para procurar petrleo em lugares exticos. Ele entenderia seu desejo de sair do casulo e experimentar as novas asas.
O homem do jantar, no entanto, no entenderia. Ele provavelmente desejava uma mulher que morasse em uma torre de mrmore, com um fogo de um lado e uma cama de outro...
Qual o problema com ela? Por que estava pensando naquele homem novamente? Era loucura? Estava louca, pensou! Como podia desperdiar seu tempo pensando em um homem como aquele?
Cade entrou na cozinha e sorriu, parecendo mais bem-humorado.
	Como quer seus ovos, fritos ou mexidos?
	Voc decide querida. Estou faminto. No me lembro de haver comido algo nas ltimas vinte e quatro horas.
Ela esperou pacientemente que ele terminasse de comer.
	Estava uma delcia, maninha. Acho at que vou tomar outra xcara de caf antes de ir ao escritrio.
	Ao escritrio?
	Sim. Tenho de dar uma olhada em alguns papis.
Bem, pensou Kyra, agora  minha chance. Ela havia considerado que podia fazer algo de til na empresa at que a venda se consumasse. Podia aprender alguma funo. Usar o computador. Responder  telefonemas. Qualquer coisa!
	Que tipo de papis?  perguntou.
Cade ergueu os ombros.
	Nada de que voc entenda.
	Pois tente me explicar  disse Kyra, sorrindo.
	Escute, maninha, sei que s quer me ajudar, mas...
	Por que tenho de praticamente bater em vocs para que escutem o que tenho a dizer?
Ela disse aquilo com suavidade, mas Cade levantou-se da cadeira como um rojo.
	Que diabos est acontecendo aqui?  disse, furioso. Para mim, chega dessa baboseira!
	Bem, para mim tambm  retrucou Kyra, tambm furiosa.  S por que sou sua irmzinha...
	Quer dizer, s porque  mulherl Bem, deixe-me dizer-lhe algo, Kyra. Sou um homem, sim, mas isso no faz de mim um inimigo! Sem uma mulher, o homem...  Cade parou de falar abruptamente, pressionando os lbios.  Vou para o escritrio. Se Zach ou Grant ligarem pea que liguem para l.
Kyra assentiu com frieza.
	Sim, senhor!
Cade abriu a boca para responder mas desistiu do que ia dizer, virou as costas e saiu batendo a porta com estrondo.
Cade passou o resto da semana no escritrio ou no telefone. Nem ele nem Kyra se referiram s palavras duras que trocaram entre si.
Kyra sabia que algo incomodava Cade. No estava apenas nervoso, estava ansioso. Ela o ouvia durante a noite, sabia que no estava dormindo. Bem, tampouco ela conseguia descansar.
O que faria com sua vida?
Certa noite, ela desistiu de dormir e foi at a varanda, sentando-se em uma poltrona e admirando o lago Cristal.
Pouco depois, ouviu Cade descer tambm. Pareceu surpreso em encontr-la acordada.
	O que est fazendo?  perguntou ele.
Kyra no respondeu. O que poderia dizer? Estou deprimida? Estou tentando decidir se quero ser uma manicure ou uma cirurgi?
Cade franziu o cenho.
	 tarde e est muito frio. Devia estar... devia estar...
Kyra encarou-o, as sobrancelhas arqueadas.
	Droga  murmurou ele.  Fao isso sempre?
	Isso o qu?
	Voc sabe. Sempre lhe digo o que fazer? Sou superprotetor?
Kyra suspirou.
	Voc no  como papai, se  o que est perguntando.
Ele recuou como se ela o houvesse atingido fisicamente.
	Claro que no sou como ele! No tenho nada a ver com ele. Eu nunca seria como papai!
	No, no seria. Voc no  dominador ou mau. Nem  egosta.  Kyra sorriu.  Mas s vezes bem que gosta de controlar as pessoas que ama.
	Isso  ridculo. No terei esse tipo de conversa com voc!
Virando-se rapidamente, ele marchou para fora da varanda. Kyra suspirou e olhou para o lago novamente.
Ser que o magoara ao dizer-lhe a verdade? No, no acreditava. Cade era maduro e companheiro, apesar de no conseguir v-la como realmente era.
Kyra levantou-se. Tinha de fazer algo logo ou ficaria louca. Tinha de experimentar a vida, de sentir... sentir... "Fica enojada por desejar um homem como eu?"
Ela parou, a voz rouca e profunda ecoando em sua cabea.
O que teria acontecido se houvesse respondido que no, que desej-lo no a enojava nem um pouco? Que desej-lo a fizera sentir-se assustada e viva, viva como nunca antes se sentira?
Kyra prendeu a respirao. Meu Deus, estava realmente ficando louca!
Uma mudana de ares, era disso que ela precisava. Mas como conseguir isso se estava presa a uma casa que odiava, uma vida que odiava, com nada mais importante para fazer que continuar sendo a princesinha perfeita que sempre fora?
Posso viajar, pensou Kyra. Posso ir a algum lugar onde nunca tenha estado antes. Posso ver coisas novas, fazer coisas diferentes, conhecer pessoas interessantes...
Mas onde? Para onde queria ir?
Correu para a biblioteca, acendeu a luz e pegou o atlas de couro da prateleira. Abriu na pgina do mapa-mndi, fechou os olhos e colocou o dedo sobre um ponto da folha.
Abriu os olhos ansiosa, olhando para o mapa. O dedo estava pousado no meio do Caribe.
Um cruzeiro! pensou excitada. Um cruzeiro pelo ensolarado Caribe. Kyra sorriu.
 Por que no?  disse em voz alta, fechando o atlas e respirando fundo.

CAPITULO II

A Imperatriz do Caribe no era exatamente o 'tipo de navio com o qual algum sonharia. E o outono, com suas tempestades e mar bravo, no era a melhor estao do ano para se fazer um cruzeiro. Mesmo assim, Kyra estava adorando a viagem.
No que nunca houvesse viajado antes. J esquiara na Sua, fora a leiles de cavalos na Irlanda e estudara na Inglaterra por seis meses. Mas sempre com o pai ou um acompanhante a seu lado.
E agora l estava, milhares de quilmetros longe de casa, fazendo uma viagem que planejara por si prpria.
A bem da verdade, ningum sequer sabia daquela viagem. At pensara em ligar para os irmos e avis-los de sua partida, mas para qu? Por acaso Cade, Zach ou Grant avisavam-na quando viajavam? Claro que no. Ento por que ela deveria?
Stella, a governanta, sabia. E Ted West, que cuidava dos estbulos, tambm. Somente eles.
Kyra abotoou a saia branca de algodo e colocou uma camiseta amarela-clara. Pela primeira vez na vida, no devia satisfaes a ningum a no ser a si mesma.
Talvez fosse justamente por isso que o Imperatriz do Caribe parecia-se tanto com o navio de seus sonhos. Escolhera o cruzeiro impulsivamente, atravs de um anncio no jornal.
Aventura! O anncio informava. Excitamento! Romance no mar do Caribe!
Todos aqueles pontos de exclamao deveriam significar algo, conclura.
E significavam, pensou, sorrindo e calando um par de sandlias brancas. Para os outros passageiros, aventura significava visitar as runas pr-coloniais e museus. Excitamento era perguntar-se se o nibus velho que os transportavam aos destinos em terra conseguiria chegar ao topo da prxima montanha, ou ento apostar que os freios eram melhores que o motor quando voltavam para o navio em descidas alucinantes.
Quanto ao romance... era agradvel ver os velhinhos que formavam o grupo danando de rostos colados. Era tambm o quo prxima ela queria estar de romance. No momento, s desejava passear e se divertir, nada mais.
Kyra penteou os cabelos e colocou pequenos brincos de ouro nas orelhas. Homens eram dominadores demais, pensou. Mas claro que nenhum homem que conhecia seria mais dominador do que aquele atraente espanhol que conhecera no jantar.
Com certeza, ele exigiria total ateno e gostaria de manter sua mulher sempre ao alcance das mos!
No que no houvesse compensaes, pensou ela, lembrando-se da chama que vira ardendo nos olhos azuis e da sensualidade cruel daqueles lbios. Um homem como aquele saberia muito bem como agradar uma mulher quando estivesse na cama com ela, tocando-a, acariciando-a...
Kyra corou, reconhecendo o absurdo de seus pensamentos. J havia decorrido semanas desde aquela noite embaraosa no Centro de Artes. Por que desperdiava seu tempo pensando naquele homem horrvel?
Afastando-se do espelho, Kyra pegou a carteira branca de couro e saiu da cabine.
O senhor e a senhora Schiller, o casal da cabine vizinha  sua, tambm estavam saindo. A senhora Schiller olhou para Kyra e sorriu.
	Bom dia, querida. Sua aparncia est adorvel!
Kyra retribuiu o sorriso.
	No  excitante? Passaremos quase o dia todo em Caracas!
O senhor Schiller assentiu.
	tima cidade, Caracas.
Andaram juntos em direo ao elevador.
	No quer se juntar a ns, para o caf da manh, Kyra? Ainda temos meia hora antes da partida do nibus.
	Muito obrigada, mas no vou me juntar  excurso. Quero conhecer a cidade sozinha.
A senhora olhou-a, preocupada.
	Tem certeza de que estar bem em uma cidade desconhecida, querida?
	 Caracas  uma cidade grande  lembrou-a o senhor Schiller.	Tenha bastante cuidado, minha jovem.
Kyra sorriu educadamente.
	Obrigada pelo conselho. No o esquecerei.
Como outros navios de cruzeiro, o Imperatriz do Caribe atracava em um porto chamado La Guaira. O lugar era cinzento e pouco atraente, mas isso no era importante para Kyra.
Pegou um txi e logo estava no centro da movimentada capital da Venezuela.
Planejara o dia com cuidado, usando um guia e brochuras que apanhara no navio. Primeiro pegaria o telefrico para subir o Monte vila e apreciar a paisagem da costa caribenha, depois tomaria caf no Hotel Humboldt. Ento voltaria  cidade e a exploraria nas horas restantes.
J no meio da tarde, Kyra estava exausta, mas feliz. Passeara pela cidade a p e de txi, e vira quase tudo em sua lista, desde os lindos jardins de La Casona at as ruas estreitas e os telhados marrons das casas da cidade velha. At vira um bicho-preguia nas rvores da Plaza Bolivar.
Kyra olhou para o relgio. Estava ficando tarde, mas ainda tinha pelo menos uma hora para passear pelas lojas e comprar alguns souvenires.
Passou algum tempo em uma loja, entretida em comprar presentes engraados para os irmos e os auxiliares e, ao sair com os braos cheios de pacotes, deu um suspiro assustado ao ver as horas no relgio de uma igreja.
	Droga!  murmurou, correndo para o meio-fio. 
	Txi  chamou, levantando a mo que segurava a carteira branca.  Hola! Txi!
Antes que tivesse tempo de reagir, uma motocicleta passou em alta velocidade a seu lado e Kyra sentiu a carteira ser arrancada violentamente de sua mo.
Em questo de segundos, o ladro, a motocicleta e a carteira haviam desaparecido.
Kyra levou alguns segundos para assimilar o que acontecera. Fiou parada em p, encarando a ruela por onde a motocicleta
sumira, o corao batendo rapidamente e as pernas trmulas.
Como isso podia ter acontecido? Era dia ainda, as caladas estavam cheias de gente...
"Caracas  uma cidade grande. Tenha cuidado..."
"Acalme-se", disse a si mesma, "apenas tente manter a calma". Voc fala espanhol. Pode pegar um txi, pedir ao motorista que a leve a uma delegacia de polcia e dar queixa do roubo.
Ou seria melhor ir para o barco? Logo estariam partindo, e ser que algum perceberia que ela no estava a bordo? Mesmo que percebessem, atrasariam toda viagem s por causa dela?
	Oh, Deus!  sussurrou, e entrou na loja onde comprara os souvenires. Demorou at que conseguisse convencer a vendedora de que tinha de devolver o que comprara e receber o dinheiro de volta, mas finalmente Kyra voltou  rua e entrou em um txi. O dinheiro daria exatamente para pagar a corrida at o cais. Agora s lhe restava torcer para que o navio ainda estivesse l.
Mas no estava. A doca onde o Imperatriz estivera ancorado, estava vazia.
Kyra ficou parada na rua deserta, olhando para a gua oleosa, dizendo a si mesma que no havia motivo para entrar em pnico. Engoliu uma risada histrica. Afinal, estar em um pas desconhecido, sem dinheiro e sem passaporte ou carto de crdito, no era motivo para pnico. Tambm no tinha a menor noo de onde era a delegacia mais prxima, ou a embaixada americana. Agora que o navio partira, Kyra pde perceber quo desertas e escuras eram as ruas do porto.
	Buenos dias, seorita.
Kyra virou-se bruscamente. Um homem sorria para ela, dois dentes de ouro brilhando no sol da tarde.
	 americana, si?
Ela no sabia se ficava mais impressionada com os dentes de ouro ou com as tatuagens do homem: uma cobra de enorme mandbula enroscava-se no brao esquerdo e no direito havia um corao atravessado por uma faca.
Kyra limpou a garganta.
	Eu... eu...
Por que estava gaguejando? Ele tinha dentes de ouro, tinha tatuagens, e da? Dentes de ouro e tatuagens no significavam que ele era m pessoa, pensou com firmeza. Tentou sorrir educadamente.
	Sim  respondeu.  Sou americana. Poderia me dizer onde fica a embaixada americana?
	Ah, mas a embaixada est fechada a esta hora, sehorita.  Dentes de Ouro franziu o cenho.  Est com problemas?
Kyra assentiu.
	Fui roubada.
	Roubada? Por um de meus compatriotas?  Ele suspirou.  Sinto muito mesmo. A sehorita deve dar queixa disso imediatamente.
Kyra tentou sorrir.
	Eu daria se soubesse onde fica a delegacia mais prxima. Voc por acaso saberia...
Ele se virou e apontou para uma viela escura.
	Claro!  por ali.
Kyra olhou para a viela. Era to escura que no se podia enxergar mais de um metro dentro dela.
	Onde?  disse ela.  No vejo nada...
	Ah, deve ir at o final, sehorita, virar  esquerda, depois  direita e  esquerda novamente...  Dentes de Ouro a encarou, sorrindo.  Venha comigo, sehorita. Eu a levarei at l.
Kyra olhou da viela para seu possvel salvador. De repente, a voz do senhor Schiller ecoou em seus ouvidos. "Tenha bastante cuidado..." Ela recuou.
	No  disse educadamente.  Muitssimo obrigada por sua oferta, mas...
	Sehorita.  Dentes de Ouro sorriu com malcia e aproximou-se ainda mais.  No tem dinheiro, no ? E no tem um homem para ajud-la.
	Ficarei bem, sehor. Estou agradecida, mas...
Ele estendeu a mo e agarrou-a pela cintura.
	Seja boazinha  disse.  Eu serei bonzinho tambm. De outro modo...
	Solte-me  exigiu Kyra, retorcendo-se furiosamente.
Dentes de ouro soltou uma gargalhada.
	Claro eu a soltarei, mas primeiro...
	Sugiro que obedea  moa, compadre.
A voz vinha de trs de Kyra. Era masculina e profunda, e apesar do tom despretensioso, era impossvel no notar a autoridade que continha.
Dentes de Ouro quase rosnou de aborrecimento.
	Isso no  de sua conta. Caia fora.
	Decidi fazer com que seja de minha conta. Solte a moa e permitirei que parta em paz.
Dentes de Ouro gargalhou.
	Deus, estou tremendo de medo!
A voz do estranho endureceu.
	Pela ltima vez, solte-a.
	Por qu? Quer a garota s para voc?  Kyra quase caiu quando ele a empurrou para o lado.  Venha peg-la, ento.
Uma faca brilhou em sua mo e ele pulou em direo  voz. Kyra ouviu rudos de luta. Uma batida seca no cho e um gemido. Dentes de Ouro estava cado no cho, a faca longe de seu alcance.
Duas vezes em um dia, pensou Kyra histericamente, duas vezes em uma hora algo incrvel acontecera rpido demais para que ela pudesse ter visto!
Seu salvador abaixou-se e levantou Dentes de Ouro. Disse algo em espanhol que Kyra no conseguiu entender, mas Dentes de Ouro certamente entendeu. Apesar de estar ainda cambaleante, assentiu e afastou-se, sem olhar para trs.
Kyra respirou fundo e deu um passo em direo a seu salvador, que estava de costas para ela, com as mos na cintura certificando-se de que o marginal realmente partira.
Ela passou uma mo trmula pelos cabelos desalinhados.
	Senor  disse, tentando manter a voz firme.  Sehor, muito obrigada pelo que fez...
	Senorita  respondeu ele com seriedade.  Aquele homem era um... marrano... Voc fala espanhol?
Kyra parou abruptamente. No, pensou, no podia ser! Sentiu um frio na barriga quando o homem comeou a vi-rar-se para ela.
	Ele era um porco. Ento me entende quando digo que... Cristo!
Antnio Rodrigo Cordoba dei Rey encarou a mulher. No, no era possvel!
Os olhos de safira encaravam aquele rosto que ele no conseguira esquecer, apesar do tempo que j se passara desde que a vira. Percebeu que ela tambm estava chocada.
	No!  murmurou.  No! No acredito nisso.
Antnio fechou os olhos mas no adiantou. Quando os abriu novamente, ela ainda estava na sua frente, vestida com uma camiseta, saia e sandlias em vez de um vestido preto de seda, mas sabia que era ela.
Aquela era a mulher que o fizera fazer papel de bobo em Denver. Pensara muito nela desde ento, sempre furioso, sempre dando graas a Deus por que nunca, nunca a veria novamente... Mas l estava ela. Por Dios, como aquilo acontecera?
	Que diabos est fazendo aqui?  perguntou.
Kyra ergueu a cabea.
	O que eu estou fazendo aqui?  Com a respirao acelerada aproximou-se dele, olhando-o nos olhos.  O que quer dizer?
Antnio estreitou os olhos.
	No acredito nisso. O que ser que fiz aos deuses para que a colocassem em meu caminho uma segunda vez?
Kyra encarou-o. Que arrogncia, insolncia, presuno...
	Esses so precisamente meus sentimentos  retrucou.  Um encontro com voc j foi o suficiente para o resto da vida. Nenhuma mulher deveria ter de aturar sua presena duas vezes!
Antnio sentiu o sangue subir-lhe ao rosto.
	Deveria considerar-se afortunada por esse encontro terrvel, senorita. Se no hovesse acontecido, teria acabado en
volvida em uma aventura muito mais interessante com seu adorvel amigo!
Ele sorriu com desdm.
	Devia escolher melhor quando decide "brincar com os nativos".
Os olhos de Kyra estavam soltando fascas.
	No tenho de ficar aqui ouvindo esses insultos imundos.
	Certamente que no.
	Muito bem.
Ela comeou afastar-se, mas a lembrana do sorriso desdenhoso enfureceu-a. Toda aquela superioridade masculina... como ousava? Respirando fundo, Kyra virou-se e encarou-o novamente.
	Algum j lhe disse que , sem dvida, o ser humano mais insuportvel da face da terra?
Uma sobrancelha negra ergueu-se.
	E pensar que alguns momentos atrs estava quase de joelhos, me agradecendo  retrucou ele com cinismo.
Kyra sentiu o rosto corar.
	Tenho certeza de que adoraria me ver de joelhos!
O sorriso de Antnio desapareceu.
	Meu nico desejo  acordar em alguns segundos e descobrir que isso no passa de um pesadelo!
	Mesmo?  sussurrou Kyra.  Ento tenho estado em seus sonhos, seor?
Antnio corou. Droga, por que estava permitindo que ela o arrastasse a esse ridculo confronto de palavras? Agora acabara se entregando. Realmente sonhara com ela desde a noite em que se encontraram, sonhos incrivelmente sensuais, o que era ridculo considerando que no era o tipo de homem que precisava ter fantasias sexuais. E aquela americana de lngua ferina seria a ltima mulher que levaria para a cama.
	Bem?  insistiu ela, a cabea inclinada e o olhar felino.
Antnio aproximou-se.
	Vejo que  uma mulher que gosta de viver perigosamente. Mas devo avis-la, sehorita, que seria imprudente provocar um homem como eu. Pode no escapar to facilmente como escapou h pouco.
O corao de Kyra disparou. Ele estava certo. No sobre o incidente com Dentes de Ouro, mas sobre o que estava acontecendo agora. No devia provocar um homem como ele desse modo. Lembrava-se muito bem de como ele a encarara naquela noite, do calor sensual que percorrera seu corpo ante o olhar provocante.
	Talvez eu devesse estar lhe fazendo essa pergunta, senorita.
Ele se aproximara ainda mais e estavam agora a centmetros um do outro. Kyra limpou a garganta.
	Que... que pergunta?
	Sobre sonhos  respondeu ele, sorrindo perigosamente.  Voc sonhou comigo, senorita?
Kyra afastou-se.
	Nunca  disse com o queixo levantado.  A no ser que esteja no meio de um pesadelo agora.
Antnio contraiu a mandbula. Estendendo as mos, segurou-a pelos ombros.
	Sente a presso de meus dedos? Garanto-lhe que isso no  um sonho.
Sim, sentia a presso dos dedos, sentia o calor de seu toque. Podia ver que os olhos dele eram cor de safira e que havia uma pequena, quase invisvel cicatriz em seu queixo, sentia o perfume dele, o cheiro de sol e mar e de masculinidade.
Ele a encarou, os olhos escurecidos e puxou-a contra si.
	Estamos ambos aqui. Em carne e osso. E s para que realmente se convena, vou provar para voc.
Antes que Kyra pudesse impedi-lo, pegou-a nos braos e beijou-a.

CAPITULO III

Antnio estava sentado  mesa do escritrio, LOS braos cruzados sobre o peito. Olhava para . o teto tentando controlar a impacincia que o invadia, mas era intil.
Quanto tempo mais ela ficaria no banheiro?
Levantando-se, caminhou at a janela e ficou olhando a chuva. Droga de tempo! Ele ficara fora tanto tempo que quase se esquecera das tempestades repentinas to comuns nos trpicos. Se pelo menos houvesse comeado a chover mais cedo... Talvez nada daquilo tivesse acontecido. Talvez sua secretria no tivesse olhado para fora e visto uma mulher, uma turista, ela dissera, sendo atacada bem na porta do escritrio.
 Devo chamar a polcia?  perguntara Consuelo.
Antnio hesitara. Parecia-lhe exagero chamar a polcia por causa de um marinheiro bbado no cais.
Suspirando resignadamente, ele se levantara e assegurara a Consuelo que resolveria o problema.
E resolvera, pensou satisfeito. No fora difcil desarmar um tolo como aquele, ainda mais bbado.
Lembrou-se de como o sorriso de gratido desaparecera dos lbios da turista, assim que percebeu quem a havia salvado. Ser que achava que era a nica abalada por aquela inacreditvel coincidncia? Encontrar-se face a face com aquela mulher novamente...
Nem em milhes de anos teria imaginado que algo assim aconteceria!
Bem, pelo menos algo bom acontecera daquele encontro. Ele a fizera sentir o calor de seus lbios, a extenso de seu desejo... At que Consuelo aparecera, olhara para ele como se fosse um monstro, passara os braos em torno dos ombros da mulher e a levara para dentro.
E agora l estava ele, um prisioneiro em seu prprio escritrio, esperando que a americana reaparecesse para poder chamar um txi e mand-la de volta para o lugar de onde viera, no importando a ele, que lugar era esse. Ento talvez ele pudesse acertar os negcios em Caracas e voar para a ilha de San Sebastian ainda aquela noite.
Olhou para o relgio, impaciente, e foi at a sala da secretria.
	Consuelo  chamou.
Ela o olhou impassiva.
	Si, sehor?
	Onde est ela?
	Ainda est no toalete, sehor.
	Ser que pensa que tenho o dia todo para esperar?
	Estou certa de que no demorar muito. Pediu um pente e...
	E voc obedeceu? Por qu? No  empregada dela.
Em tom frio, Consuelo respondeu:
	A sehorita teve uma experincia terrvel, sehor. Acho que qualquer ser humano decente sentiria compaixo por ela.
 Antnio abriu a boca, para depois fech-la. A crtica no fora sutil, mas Consuelo no era uma pessoa que se poderia chamar de sutil. Tinha idade suficiente para ser sua me, trabalhava para ele h dez anos, e sempre que ele precisava ser colocado no seu devido lugar, ela era uma das nicas com coragem suficiente para isso.
	Ela passou por momentos difceis, sehor dei Rey  acrescentou Consuelo, com suavidade.
Antnio apertou os lbios.
	Talvez tenha tambm aprendido uma lio. O mundo e seus habitantes no so brinquedos colocados aqui para entret-la.
Virou-se e bateu a porta atrs de si antes que Consuelo pudesse responder. Irritado, voltou a sentar-se.
Qual seria o Deus, com esse terrvel senso de humor, que a trouxera para a Venezuela e a depositara na porta de seu escritrio, justo no dia que ele resolvera passar por l? Era insano.
	Insano!  resmungou Antnio, tamborilando os dedos no tampo da mesa de carvalho.
Ouviu uma batida na porta.
	Entre  disse com rispidez.
A porta se abriu e Kyra entrou na sala.
Estava plida, o rosto abatido e sem maquiagem. Os cabelos molhados estavam penteados para trs, dando-lhe uma aparncia vulnervel.
Apesar de um pouco desalinhada, ela continuava ereta e altiva, cheia de dignidade. E continuava linda, pensou Antnio, to linda quanto ele se lembrava.
No que se importasse.
	Seor...
Kyra limpou a garganta. Pensara muito nos ltimos minutos, o suficiente para decidir que havia sido extremamente mal-educada. No devia ter agido to mal nem ter sido to agressiva...
Mas olhou para ele, sentado ali como um rei, nem s.equer fingindo educao.
No. No podia pensar assim, ou no conseguiria pronunciar o pequeno discurso que preparara.
Esquea a insolncia do homem. Seus defeitos eram problemas dele, no dela. Esquea tambm que ele a beijou. O beijo no passou de uma demonstrao de poder masculino, primitiva, mas efetiva. Do ponto de vista dele, claro, no do dela. Se bem que houvera uma frao de segundo na qual se sentira levada por uma espiral estonteante, como se... como se...
Kyra endireitou os ombros. O que estava feito, estava feito. Alm disso, o que podia esperar de um homem que usava seu machismo como uma medalha de honra?
A verdade era que, gostasse ou no, ele a salvara de uma situao aterradora. Devia agradecer em primeiro lugar, e tambm desculpar-se. Mesmo que se engasgasse com as palavras, tinha de diz-las.
Limpou a garganta novamente e recomeou.
	Sehor  disse.  Eu, ah, eu acho que...
	Feche a porta, por favor.
Apesar de no gostar do tom autoritrio que ele usara, Kyra obedeceu.
	Acho que lhe devo desculpas  disse ela, e tentou esboar um sorriso.
	Com certeza  respondeu Antnio, friamente.
Ora, ento ele ia aproveitar-se da situao? Bem, tudo bem, pensou Kyra. Deixe-o agir como quiser.
	Sim  continuou , voc arriscou seu pescoo por mim e...
	Acredite-me, senorita, meu pescoo no correu risco algum.
Mas que diabo de homem! Como podia soar to superior?

	De qualquer modo  disse Kyra com calma , eu devia ter lhe agradecido. E...
	Mas voc me agradeceu. Pelo que me lembro, foi muito efusiva em seus agradecimentos, at que percebeu quem eu era.
	Sim. Bem, talvez eu... Voc me fez um favor e...
	Um favor?  Antnio sorriu com desdm.  Desculpe-me, senorita, mas acho que seria mais apropriado dizer que salvei sua pele!
Kyra sentiu o rosto corar.
	Bem, o que quer que eu faa? Rasteje a seus ps? Se  isso que pretende, senhor,  melhor que esquea, pois eu jamais faria isso!
Olharam-se nos olhos por um momento e ento Antnio levantou-se.
	Tem muito carter, senorita, tenho de admiti-lo.
	Por que no admitir tambm que aceita minhas desculpas?  Aproximou-se dele com a mo estendida, determinada a acabar logo com aquilo.  Meu nome  Kyra Landon e agradeo-lhe pelo que fez.
Antnio olhou para a mo estendida em sua direo e, aps um breve instante, apertou-a.
	Sou Antnio Rodrigo Crdoba dei Rey  disse.  E asseguro-lhe, fiz apenas o que qualquer homem honrado teria feito em meu lugar. Que diabos fazia em La Guaira, senorita?
 Antnio sorriu falsamente.  Achou que seria divertido conhecer a parte selvagem da cidade?
Kyra ergueu a cabea.
	J me perguntou isso  disse friamente.  E eu j respondi.
	Bem, qualquer que tenha sido o motivo que a levou a aventurar-se nessa rea sozinha, aconselho que no futuro...
	No preciso de seus conselhos, sehor.
Antnio voltou a sentar-se, cruzando os braos e estendendo as pernas.
	Certamente precisa dos conselhos de algum.
Os olhos de Kyra faiscaram.
	Pelo amor de Deus! Eu devia ter sabido que seria impossvel conversar com voc civilizadamente!
	Ao contrrio, senhorita Landon. Se no estivssemos conversando civilizadamente, eu lhe diria que agiu como uma tola hoje e que quase pagou um preo bem caro por isso.
	J chega. Adeus, senhor dei Rey. No tenho a mnima inteno de ficar parada aqui enquanto voc...
	Vocs americanos me divertem, sehorita. Nunca pensariam em passear pelas ruas de sua prpria cidade sem saber onde esto, entretanto fingem que o resto do mundo  um parque de diverses onde podem fazer o que quiserem sem pensar nas consequncias.
Mas quem aquele homem pensava que era?
	O senhor est certo. Infelizmente, eu parei de ler a National Geografic anos atrs, ou teria me lembrado o quo primitivo  seu continente.
Era uma mentira, claro. S conhecia Caracas na Amrica do Sul e era uma cidade to moderna quanto qualquer outra. Mas pela expresso do senhor Antnio Rodrigo no sei o qu dei Rey, viu que conseguira irrit-lo.
	Muito obrigado por suas sinceras desculpas, sehorita Landon  retrucou ele com sarcasmo, estendendo a mo em direo ao telefone.  Agora, se me disser o nome de seu hotel, chamarei um txi para lev-la de volta para o lugar de onde veio.
O lugar de onde viera... repetiu Kyra mentalmente. Quase esquecera da encrenca na qual se encontrava. Droga! Oh, droga!
	Bem, na verdade no estou hospedada em um hotel.
	Qual o endereo de seus amigos, ento?
Kyra olhou para a mo dele, suspensa sobre o teclado do telefone. Aquele era o momento de contar-lhe toda a verdade, que no tinha dinheiro, carto de crdito ou passaporte...
Admitir que a nica pessoa que conhecia no continente todo era ele? No, nem pensar. Nem que tivesse de dormir na rua!
	No vejo necessidade de dar-lhe o endereo, sehor dei Rey.Sou perfeitamente capaz de diz-lo eu mesma para o motorista.
Antnio sorriu foradamente. Do que aquela mulher tinha medo? Ser que pensava que ele a seguiria como um co vadio?
	Como quiser  respondeu.  Mas no precisa se preocupar sehorita Landon. O nico interesse que tenho em saber onde est hospedada  para que eu possa evitar de nos encontrarmos novamente.
	Que ideia maravilhosa!
Antnio pegou o telefone com raiva.
	Consuelo? Por favor, chame um txi para nossa convidada. E diga ao motorista que venha sem demora. Obrigada.
Desligando, Antnio pegou alguns papis na mesa a sua frente e comeou a l-los. Aps alguns momentos, olhou para cima e arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa.
	Ainda est aqui, sehorita Landon?
Ficou feliz ao v-la corar.
	Desculpe-me  respondeu ela com frieza.  No havia percebido que fora dispensada.
Kyra deu meia volta e saiu da sala, batendo a porta com tanta fora que os quadros na parede chacoalharam.
 uma mulher mimada e mal-educada, pensou Antnio, olhando fixamente para a porta fechada. Bem, soubera disso desde a primeira vez que a vira e conclura que ela precisava de um homem enrgico para coloc-la no seu devido lugar.
Mas no ele. Oh, no. O trabalho seria maior que a recompensa, com certeza.
Lembrou-se ento de como se sentira ao segur-la nos braos e beij-la, os lbios macios contra os seus...
Antnio resmungou algumas palavras. Voltou a ateno aos papis e, aps alguns momentos, j se acalmara o suficiente para que o que estava lendo comeasse a fazer sentido.
Kyra esperou que o txi se afastasse bastante do escritrio de Antnio para confessar ao motorista que no tinha dinheiro. O homem pisou no freio e encostou o carro na guia.
	Mas tenho como conseguir dinheiro  disse ela rapidamente. Comeou a explicar tudo o que acontecera: que fora roubada, que perdera o navio, que precisava ir  delegacia e procurar ajuda na embaixada americana...
O motorista resumiu seu problema em uma simples pergunta.
	Tem dinheiro para pagar a corrida, seorita?
Kyra hesitou.
	Bem, no  disse finalmente.  No no momento. Mas amanh...
	Estou interessado em hoje, no em amanh.
Nada do que disse convenceu-o a mudar de ideia. Minutos mais tarde estava em p na beira da estrada, olhando o txi afastar-se e sumir na escurido.
Por mais que se esforasse, no pde deixar de estremecer. A chuva havia parado, mas parecia que no por muito tempo. A estrada estava deserta e a noite cara rapidamente.
Precisava de ajuda, era bvio. S que no tinha a mnima ideia de a quem recorrer.
Comeou a andar decididamente. Sabia que qualquer lugar seria melhor do que no meio daquela estrada.
A chuva recomeou. Um carro aproximou-se e Kyra pulou para a beira da estrada, acenando os braos.
O carro passou por ela sem sequer diminuir a velocidade. Kyra suspirou fundo e continuou andando.
Ouviu outro carro se aproximar e correu quase at o meio da estrada.
	Hey!  gritou.
A caminhonete velha passou por uma poa de gua e encharcou a roupa de Kyra, que j estava mida devido  chuva. Mesmo assim no parou para ajud-la.
"Tudo bem. Vou continuar andando", pensou ela. Talvez tenha sorte. Talvez um carro de polcia ou outro txi passasse por ali. No seria to estpida novamente, esperaria que o txi chegasse em Caracas antes de dizer ao motorista que no tinha...
Ouviu outro carro aproximar-se e, sem hesitar correu para o meio da estrada e comeou a pular.
	Pare, por favor, pare  gritou.
O motorista freou bruscamente quando a viu. O carro derrapou no asfalto molhado ficando fora de controle por alguns segundos e finalmente parando atravessado na estrada.
Ela olhou para o carro, parecia ser um Jaguar. No que se importasse. O que realmente importava era o frio na boca de seu estmago quando o motorista abriu a porta e desceu.
No, pensou Kyra, por favor, no! De novo no...
	Me de Deus  rosnou Antnio, aproximando-se e segurando-a pelos ombros.  O que est tentando fazer comigo?
Kyra ergueu o queixo desafiadoramente.
	No tinha ideia de que era voc. Na verdade se eu soubesse...
	Ser que meu destino  sofrer um desastre por sua culpa?
	Desastre por minha culpa?  Kyra afastou os cabelos molhados dos olhos e encarou-o.  No era eu quem estava dirigindo a duzentos quilmetros por hora em uma estrada molhada, era?
	O que est fazendo aqui? Est tentando me matar? Ou ficar satisfeita em simplesmente me enlouquecer?
	No  incrvel?  Kyra libertou-se das mos dele e cruzou os braos.  Os homens sempre pensam em si em primeiro lugar.
Antnio estava to furioso que colocou as mos nos bolsos para no perder o controle.
	No entendo  disse.  Voc estava em um txi. J devia estar longe dessa rea, e de minha vida!
Kyra ergueu os ombros.
	 verdade.
	E verdade? O que quer dizer com " verdade"?
Ela o encarou com firmeza.
	Quero dizer que preciso de uma carona at Caracas.

	Precisa de uma carona...  Antnio respirou fundo e olhou em volta.  O que aconteceu com o txi? Quebrou?
	Partiu.
	Partiu? Como assim partiu? Txis no partem, pelo amor de Deus!
Kyra hesitou, mas de que adiantava? Estava escuro, chovendo e sentia-se desesperada demais para continuar mentindo.
	Partem sim, quando no se tem dinheiro para pag-los.
Antnio estreitou os olhos.
	Do que est falando, seorita?

	Meu dinheiro foi roubado  disse ela bruscamente. No tenho um bolvar sequer.
	Quer dizer que o motorista de txi...
	Um homem de motocicleta levou minha carteira.
	No entendo. Quando isso aconteceu? Certamente no antes do incidente na porta do escritrio?
Kyra suspirou.
	Escute, eu responderei todas as perguntas que quiser...
	Certamente que sim!
	Mas ser que poderamos continuar essa conversa dentro do carro, por favor?
Por favor? Ela dissera "por favor"? Pela primeira vez, Antnio olhou atentamente para a mulher a sua frente.
No havia palavras para descrev-la. Os cabelos estavam encharcados, grudados na cabea, gotas de gua pingavam de seu queixo e nariz, a saia estava coberta de lama.
Era uma viso que deveria t-lo feito sorrir de satisfao. Em vez disso, teve de lutar contra o repentino e irracional desejo de peg-la nos braos e dizer que tudo ficaria bem... Droga, que diabos estava acontecendo com ele? Irritado abriu a porta do carro.
	Bem?  perguntou.  Vai entrar logo ou esperar que eu lhe jogue uma bia salva-vidas?
Kyra sentiu o corpo- enrijecer. Por um segundo, pareceu perceber uma nota de humanidade em Antnio dei Rey, o que servia para provar o quo atordoada estava aps aquele longo e conturbado dia.
	Falou um cavalheiro de verdade  disse com doura, e entrou no Jaguar.

CAPITULO IV

Assim que Kyra se acomodou no banco do Ja-Lguar, Antnio passou-lhe um leno branco.
	Tome  disse bruscamente.   melhor se secar. E coloque o cinto de segurana.
Ela virou-se e encarou-o.
	Certamente, senhor. Algo mais que gostaria que eu fizesse?
	Sim  respondeu ele, com frieza.  Diga-me onde quer que a deixe em Caracas.
Em lugar nenhum, pensou ela. No havia lugar algum onde pudesse ir. No tinha dinheiro, passaporte ou amigos. No conhecia ningum no continente inteiro, a no ser esse ditador sentado a seu lado.
Kyra estremeceu inadvertidamente.
	Est com frio?
Kyra piscou, confusa.
	O qu?
Antnio olhou-a com impacincia.
	Pensei t-la visto estremecer.
	Oh, mesmo?  Forou um sorriso.  Nem percebi...
	Tem uma jaqueta no banco de trs. Vista-a.
- No  necessrio.
	Por Dios, tem de discutir tudo o que digo?  Ele estendeu a mo pra trs e pegou a jaqueta.  Vista-a, por favor.
Por favor? Quem ele queria enganar? O tom de sua voz deixava claro que ela no tinha escolha. Enrolou-se na jaqueta, contrariada, mas acabou apreciando a ideia. Era de um tecido pesado e macio e exalava, levemente, o perfume do dono.
Kyra sentou-se mais ereta, tentando desviar sua ateno do cheiro.
Seu desejo  uma ordem, senhor  provocou.
Se tentou insult-lo, no conseguira. Antnio riu e olhou para ela.
	Continue pensando assim e nos daremos muito bem.
Kyra sorriu com desdm.
	Algum j lhe disse que est vivendo no sculo passado?
	Ah, uma feminista  respondeu com suavidade.
	S na sua opinio, eu garanto.
Antnio suspirou.
	Estar livre de mim em breve  disse.  Onde devo deix-la?
Kyra remexeu-se no acento, inquieta. Aquele era o momento de contar que no estava hospedada na casa de amigos e que o barco partira sem ela.
Mas o que faria ento? Aonde poderia pedir que ele a levasse? O pensamento de ter de dizer a ele que no sabia para onde ir ou o que fazer, no a agradava.
	Bem?
Ela ergueu os ombros.
	Bem, no est longe  respondeu.  Eu lhe digo quando chegarmos l.
O que diria quando chegassem ao centro da cidade?
Onde ficaria? E, o principal, como fora meter-se em tamanha enrascada?
Embarcara em uma aventura para dar um novo rumo em sua vida e acabara sem dinheiro ou documentos e reduzida a obedecer ordens de um ditador sul-americano, de cabelos grossos e negros, traos marcantes e pele dourada.
Os olhos, brilhantemente azuis... Eram lindos, com certeza. Ele podia ter o corao e a alma de um tirano, mas...
	Ainda estou esperando, Kyra.
Ela o encarou.
	Esperando o qu?
	Uma explicao de por que deixou-me coloc-la em um txi sem admitir que no podia pagar a corrida.
	Eu, ah, eu...
	Voc o qu?
"Eu no queria ficar devendo ainda mais a voc", pensou ela, mas no disse nada. Tinha de pensar em alguma boa desculpa rapidamente.
	Pensou que o motorista a levaria at Caracas por caridade?
	No exatamente, mas...
Antnio apertou o volante do carro. Ela era tpica de sua classe social, pensou furioso. No sabia nada sobre o mundo real e achava que a vida era fcil e cheia de privilgios.
	Foi estpida em recusar-se a me contar que no tinha dinheiro.
Kyra encarou-o, os olhos soltando fascas.
	Sabe, devia considerar que podem haver circunstncias atenuantes antes de chamar algum de estpido!
	Se houvesse me contado a verdade  disse ele.  Teria lhe emprestado dinheiro.
	Essa era a ltima coisa que eu queria.
Ele sorriu com desdm.
	Entendo. Preferiu arriscar-se noite afora do que pedir minha ajuda, no ?
	S no achei que meu problema fosse de sua conta.
	Uma atitude admirvel.  A voz de Antnio estava carregada de sarcasmo.  Ainda assim, parece que acabei envol
vido, no ?
Ela mordeu o lbio inferior e aguentou a provocao em silncio. Ele estava certo e, a menos que pensasse em algo rapidamente, teria de ter uma dose ainda maior de humildade.
	Presumo que tenha ido  polcia para dar parte do roubo.
	E nem se incomode em iniciar outro sermo, ok? No tive tempo. Tinha de escolher entre ir  uma delegacia ou tentar chegar ao navio antes que partisse e...
	Navio?
Kyra respirou fundo. Agora teria de terminar o que comeara.
	Sim  murmurou.  O Imperatriz do Caribe. Eu estava em um cruzeiro e Caracas era uma das paradas. Eu...
	Disse que estava hospedada com amigos.
	No disse isso! Voc disse. Eu apenas no o corrigi.
	No acredito nisso! Primeiro voc no tem dinheiro. Segundo no tem documentos. Terceiro...
	Terceiro, voc no est fazendo isso parecer com... com algum tipo de incidente internacional? Escute, foi uma idiotice, isso 
tudo. Tenho certeza de que no sou a primeira passageira a chegar atrasada s docas. S no imaginei que o navio fosse partir sem mim. Quero dizer, honestamente, acho que o capito deveria...
	Sei precisamente o que acha.  A voz de Antnio era fria.  Que o capito devia ter atrasado a partida e atrapalhado a vida de todos os outros passageiros, para sua convenincia.
	No! S quis dizer que...
	O que estava fazendo para perder a noo do tempo?
	Compras, e para sua informao...
	Compras  Antnio sorriu com desdm.  Claro. O esporte dos ricos.
Kyra riu involuntariamente. O que ele diria se visse os souvenires divertidos que comprara para os irmos e amigos?
Mas ela no tentou se explicar. De que adiantaria? Ele no era apenas um ditador, era um hipcrita! O esporte dos ricos, no? E que dizer sobre ele, com suas roupas feitas sob medida e seu carro esporte?
	Bem estou esperando sua explicao.
Kyra sorriu sem vontade.
	Ento vamos l: sim, eu estava fazendo compras e, sim, foi divertido. E voc est certo, eu imaginava mesmo que o capito fosse me esperar. Esqueci de alguma coisa?
	Sim. Esqueceu-se de dizer onde quer descer. Notou que j chegamos em Caracas?
	Oh,  mesmo, eu nem havia notado. Estava ocupada demais pensando em quanto o senhor me desagrada, seor del Rey, e no imenso prazer que ser sair deste carro!
	Pela ltima vez, sehorita, onde devo deix-la?
Kyra olhou pela janela. As ruas estavam cheias de pedestres, grandes lmpadas iluminavam o movimento e, o melhor de tudo, havia um grande hotel logo  frente.
	Aqui  indicou.
Antnio encostou o carro na guia, ignorando as businas dos carros atrs.
	 um prazer  disse ele.
O carro mal parara quando Kyra abriu a porta. Tirou o cinto de segurana e jogou a jaqueta no colo de Antnio.
	Adeus, sehor dei Rey  disse, descendo do carro.  Obrigado pelo dia memorvel.
	Pena que no posso dizer o mesmo, sehorita Landon.
Kyra bateu a porta e Antnio partiu, cantando pneus.
Que mulher impossvel! Que insolncia e frieza! To certa de que o mundo era dela...
E que pernas. Sentara-se ao lado dele, as pernas estendidas, provocando-o. Seu perfume tambm o incomodava. Por que a chuva no atenuara a fragrncia doce e perturbadora? E os cabelos, despenteados e fazendo-o imaginar que ela acabara de se levantar aps uma longa e doce noite em seus braos?
Graas a Deus, nunca mais a veria.
Antnio pisou fundo no acelerador e dirigiu para longe dali. Seis quarteires adiante, Antnio parou o carro abruptamente, desencadeando outra chuva de buzinas. Ser que Kyra Landon tinha mesmo um crebro? E ele?
Antnio tamborilou os dedos na direo do carro. Sem dinheiro. Sem carto de crdito. Como ela pagaria por um quarto de hotel? Sem passaporte ou visto, como provaria que no entrara no pas ilegalmente? No estavam nos Estados Unidos, droga; as coisas ali no eram to simples assim.
Inferno, pensou ele, que importncia tinha? Ela no gostava dele, nem ele dela. E, como ela mesma dissera, no era problema dele. Podia explicar sua situao ao gerente do hotel, ou at mesmo  polcia.
A polcia, pensou Antnio, preocupado. Caso se envolvessem, ela podia acabar passando a noite na cadeia. Podia at passar o final de semana inteiro l, a menos que conseguisse convencer algum a deix-la ligar para a embaixada americana. E mesmo que ligasse, quem sabia o que a embaixada poderia, ou iria, fazer?
Bem, e da? Duas noites atrs das grades poderiam fazer bem a uma mulher como aquela. Com certeza, ela mudaria sua atitude superior aps dormir em um colcho imundo, numa cela infestada de baratas...
	Droga!  disse Antnio, dando a partida no carro novamente e virando-o para a direo de onde viera.
Chegou no lugar onde deixara Kyra bem na hora. Ela estava saindo do hotel, a cabea erguida e o corpo ereto, mas algo na palidez de seu rosto lhe dizia que as coisas no haviam corrido bem.
O porteiro olhou-a com reprovao e ela apressou o passo. De repente, um homem saiu apressado pela porta e disse algo ao porteiro, que franziu o cenho e deu um passo na direo de Kyra.
	Seorita  gritou.
Ela no olhou para trs.
Antnio praguejou, abriu a porta do passageiro e tocou a buzina.
	Kyra!  gritou.
Ela hesitou e olhou para a rua. Ele gritou seu nome novamente e viu o rosto de Kyra se iluminar ao reconhec-lo.
	Entre no carro  ordenou ele e Kyra apressou-se em obedec-lo. Sem esperar que ela se acomodasse, Antnio partiu com rapidez.
	Oh, Antnio  disse ela, sem flego.  Voc apareceu bem na hora!
Ele a encarou e notou que seus olhos brilhavam de excitao. Queria fazer algo, mas o qu? Sacudi-la at que criasse juzo? Beij-la at que sua boca se abrisse para ele?
	Esto nos seguindo?  perguntou ela, olhando para trs.
 Voc devia ter visto o que aconteceu l, Antnio. Foi como um filme de espionagem. Pedi um quarto e...
	Qual  o problema com voc?  rosnou ele.  Acha que isso  um joguinho?-
	Claro que no. S estou tentando dizer-lhe que...
	Pensou que eles fossem ceder-lhe um quarto e dizer que poderia pagar por ele no prximo milnio?
O sorriso de Kyra havia se apagado.
	Pare de gritar comigo! E pare de agir como se eu precisasse de um guardio!
	E exatamente do que precisa  disse Antnio, furioso.
Kyra olhou-o com raiva, respirando fundo. Minutos atrs, quando vira o carro dele e o ouvira chamar seu nome, seu corao se enchera de alegria. O que fora uma experincia aterrorizante, de repente se transformara numa aventura quando soubera que Antnio estava l para proteg-la.
Proteg-la? No queria aquilo! O que a fizera pensar algo to estpido? Pensando bem, o que a levara a pensar que estava feliz em rever Antnio dei Rey?
	Muito bem  disse com frieza.  Voc j se divertiu.
	Diverti-me?  isso? Pensei que estivesse protegendo uma criminosa.
Kyra corou.
	No sou uma criminosa.
	Fugiu do gerente do hotel.
	Queria que eu ficasse l e esperasse ele chamar a polcia?
	Por que no?  respondeu Antnio, os olhos fixos na estrada. Podia ter dado queixa do roubo de seus documentos.
	Sim, mas... Eu tive a sensao de que a polcia no acreditaria em mim, assim como o gerente no acreditou.
	O que disse a ele?
	A verdade. Que eu perdi o embarque, que um ladro roubou minha bolsa...
	O que ele viu, foi uma mulher que parece que dormiu com essas roupas.
Kyra corou mais ainda. Passou as mos pelos cabelos em um gesto defensivo.
	Bem, sei que estou em um estado deplorvel, mas...
Ela no estava em estado deplorvel. Estava um pouco desarrumada, sim, mas ainda assim linda. Mais linda do que da primeira vez que a vira. Parecia uma mulher de verdade agora, no uma manequim.
Antnio franziu o cenho. De que lhe importava a aparncia dela? Seu problema era o que fazer com ela agora que a tirara do hotel.
	De qualquer modo, voc no tinha de me ajudar se pensa que estou mentindo.
Ele suspirou.
	No disse que est mentindo. O que disse foi...
	Sei o que disse. Faa-me um favor e no comece com a ladainha novamente. Por que decidiu voltar?
	Por que ocorreu-me que aconteceria exatamente o que aconteceu.
Ela hesitou.
	Suponho que deva agradecer-lhe...
	Eu a vi em ao, Kyra. No a infligiria a ningum, nem mesmo  polcia.
Era o momento para uma resposta inteligente, mas de repente ela se sentiu exaurida. Estava cansada, faminta e sentindo-se cada vez mais desesperada.
	Vamos fazer um acordo  disse em tom cansado.  No o atacarei se voc no me atacar, est bem?
Antnio abriu a boca para responder, mas decidiu que no valeria a pena. Ela deva estar exausta, pensou, e levantando os ombros, concordou:
	Est bem, acordo fechado.
Ficaram em silncio por alguns minutos e ento ela suspirou.
	Eu deveria ir at a embaixada...  Para seu horror e consternao, percebeu que a voz estava trmula. Limpou a garganta e continuou.  Tenho de fazer algo. Antnio arqueou as sobrancelhas.
	Est pedindo meu conselho?
Kyra hesitou, mas acabou admitindo:
	Estou aberta  sugestes.
E, naquele momento, a resposta ocorreu a Antnio. Teria provavelmente lhe ocorrido mais cedo se aquela mulher no o deixasse to furioso.
Podia resolver o problema com poucos telefonemas. Conhecia alguns oficiais, americanos e venezuelanos, que ficariam felizes em ajud-lo. Podia ajud-la a sair daquela enrascada em poucos minutos.
	Por que est sorrindo?
Antnio encarou-a.
	Pensei em um modo de ajud-la.
	Mesmo?  Ela sorriu tambm.  Como?
Ele balanou a.cabea.
	Primeiro vamos jantar. Depois eu explico.
	Jantar? Mas...
	Primeiro o jantar  interrompeu-a com deciso, parando o carro em frente a um prdio.
Na verdade, pensou Antnio ao descer do carro, no havia motivo para no contar-lhe logo sobre seu plano, mas ainda haviam alguns detalhes que ele queria considerar antes de explicar-lhe tudo.
	Antnio, no quero jantar! Quero saber...
Kyra rangeu os dentes. Como sempre, ele no estava ouvindo. J fechara a porta e estava dando a volta no carro para abrir a porta para ela.
	Venha  disse, naquele tom imperioso que ela j estava odiando.
	Droga, Antnio!
	E to impossvel assim fazer o que digo?
Ele comeou a sentir seu bom humor esvaindo-se ao v-la permanecer sentada, olhando-o como uma criana mimada. Finalmente, ele inclinou-se, soltou seu cinto de segurana e puxou-a para a calada.
	Aonde est me levando?
	A um restaurante.  tarde e estou faminto. Quero uma refeio e uma taa de vinho, e ento conversaremos.
	Podia ter me perguntado o que quero!
Antnio virou-se para ela.
	Muito bem  disse com aspereza.  Estou perguntando agora. Deseja me acompanhar no jantar ou prefere ficar em
burrada no carro?
Olhou para ele furiosamente. Estava tentando faz-la sentir-se uma idiota.
	Decida logo, querida. J lhe disse que estou faminto.
	No gosto que me chame de querida!
	E eu no gosto de mulheres que discutem sobre tudo!  Pegou-a pelo brao novamente e arrastou-a at a entrada de um restaurante, obviamente carssimo.
Um garom bajulador indicou-lhes uma mesa. A raiva de Kyra martelava seu crebro. Ela se jogou na cadeira, abriu o cardpio e enterrou o rosto nele.
Audcia desse homem! Como podia trat-la desse modo?
	... prefere, Kyra?
Olhou para ele por sobre o cardpio.
	O que disse?
	Indaguei se preferia um Burgundy ou um Pinot Choir.
	Bondade sua perguntar.  Kyra fechou o cardpio e colocou-o sobre a mesa.  No quero vinho.
Antnio decidiu ignorar o mau comportamento de Kyra. Fechou o cadpio tambm e olhou para o garom.
	Traga-nos vinho tinto, Carlos, uma garrafa de Chateau-neuf-Du-Pape, si? E fils, e...
	No me ouviu? No quero vinho. E no quero um fil. Prefiro...
	 a especialidade da casa, Kyra  Ele sorriu. Deseja o seu mal ou bem passado?
Kyra sentiu o sangue subir s faces.
	Escute aqui, Antnio. Pela ltima vez, no quero...
	Mal-passado, ento, Carlos. Traga tambm batatas e salada, si?
Antnio recostou-se novamente na cadeira enquanto o garom se afastava.
	Vai sentir-se melhor aps comer algo, Kyra, e ento eu lhe direi a soluo para seu problema.
Como ela desprezava aquele rosto atraente! Ele resolveria seu problema? Bem, por que no? Arrastara-a para o restaurante, pedira sua comida... Ele estava controlando sua vida! Bem, ela devia dar um basta naquilo!
	Carlos  chamou.
O garom j estava quase do outro lado do salo, mas a voz de Kyra alcanou-o. Ele se virou,- na verdade, metade das pessoas que jantavam no lugar se viraram, mas ela no deu importncia quilo, e voltou apressadamente para o lado de Antnio.
	Sehor? Algum problema?
	O sehor no o chamou  disse Kyra com frieza.  Eu o chamei. E, sim, h um problema. No gosto de ser ignorada.
Os olhos de Antnio se estreitaram. Ficou em silncio enquanto Kyra pedia peixe cozido, tomates e um copo de ch gelado. O tom de sua voz era constante e imperioso.
Aquela era a verdadeira Kyra Landon, pensou Antnio, os lbios contrados. Lembrou-se de como pensara que ela precisava de um homem para coloc-la no devido lugar e que uma noite na priso lhe faria bem. Talvez estivesse certo.
Naquele instante, com um arrepio de antecipao, soube exatamente que oferta faria para ela.
O garom olhou para Antnio quando Kyra terminou o pedido. Antnio aquiesceu.
	Tudo bem, Carlos  disse calmamente. Faa o que a seorita pediu.
O corao de Kyra bateu rapidamente. Nunca se comportara to mal em toda sua vida, mas valera a pena s pelo olhar surpreso e desgostoso de Antnio.
	Mudei de ideia  disse ele.  Decidi contar-lhe meu plano agora em vez de esperar at o final do jantar.
Kyra sorriu. Sua demonstrao de independncia funcionara, ento.
	Sim? Qual  o plano?
O rosto dele permaneceu impassvel enquanto dizia.
	Tenho uma ilha na costa venezuelana. Chama-se San Sebastian. Quando estou na Venezuela, fico l. E para onde estava indo esta noite quando voc pulou na frente do carro.
	Deve ser uma linda ilha, tenho certeza  disse ela, impaciente.  Mas o que isso tem a ver comigo?
O sorriso de Antnio foi perigoso o suficiente para fazer Kyra prender a respirao.
Voc morar em minha ilha por uma semana, Kyra. Ao final desse perodo, vou...
A raiva tomou conta do crebro de Kyra, impedindo-a de raciocinar com clareza. Levantou-se to rapidamente que sua cadeira caiu com um estrondo contra o cho de madeira polida. O restaurante ficou em silncio; todos os olhos se viraram novamente para ela, e ela, novamente, no se importou.
	Prefiro viver na rua!
Antnio riu.
	Que tal uma cela de priso?  disse em tom sedoso.  Gostaria de passar a noite em uma?
Kyra jogou o guardanapo sobre a mesa e, cabea erguida, marchou atravs do salo, restaurante afora.
Calmamente, Antnio levantou-se e colocou algumas notas sobre a mesa, acenando para Carlos.
Viu Kyra assim que saiu  rua e, entrando no Porche, partiu em sua direo. Parou ao lado dela e desceu do carro.
Kyra virou-se assim que ele tocou seu ombro e, com as mos, afastou-o com fria.
	Fique longe de mim!
Antnio riu. Enlaou-a pela cintura e puxou-a contra si, apesar dos esforos ferozes de Kyra para desvencilhar-se.
	Se no me soltar juro que grito!
	Grite, Kyra. Talvez a polcia venha.  Baixou a cabea at quase encostar sua boca contra a dela.  E ento poder escolher entre a hospitalidade deles e a minha.
	Eu o matarei por isso, Antnio... Eu...
A boca dele desceu sobre a de Kyra, dura, quente e faminta. Ela fechou os punhos e bateu com fora no peito dele, mordeu os lbios dele, mas nada disso o deteve. Continuou beijando-a, os lbios movendo-se vagarosamente, a lngua acariciando sua boca at que, com um leve soluo, ela fez o que ele queria, o que ela queria, e abriu os lbios para ele.
Antnio apertou-a com mais fora. Kyra sentiu o corao dele batendo rapidamente e sentiu tambm o poder do desejo de Antnio contra o bero de sua feminilidade...
Ento ele a soltou.
Ela abriu os olhos encarando-o, e sentiu-se como se estivesse acordando de um sono profundo.
	Perceba, querida  disse ele calmamente , que se eu a desejasse, poderia possu-la a qualquer momento.  Cruzou os braos, a expresso impassvel.  S que no a desejo.
Viu a confuso e a vulnerabilidade no olhar de Kyra. Por um segundo, hesitou, mas ento lembrou-se de quem ele era e de quem fora, e seu rosto endureceu ainda mais.
	J trabalhou para seu sustento?  Sorriu, encarando-a, a voz quase gentil.  Esquea. Ambos sabemos a resposta.
	Aonde est tentando chegar, Antnio?  perguntou, insegura.
	Vou empreg-la por uma semana. Ao final desse tempo, providenciarei para que tenha um passaporte e um visto e possa sair do pas sem complicaes. E pagarei o suficiente para que v para casa do modo ao qual est acostumada.
	Empregar-me?
	Exatamente.
	Mas... mas que tipo de emprego?
Ele sorriu com sarcasmo.
	Boa pergunta. Afinal, o que uma mulher como voc poderia fazer em benefcio de algum? Tenho uma governanta. Deixarei que Dolores determine suas habilidades e lhe d uma ocupao apropriada.
Kyra ficou calada por alguns segundos e ento riu nervosamente.
	Isso  uma brincadeira, certo?
Antnio parou de sorrir.
	Nunca fui to srio em minha vida  disse com frieza.  Agora decida-se. Prefere ir comigo para San Sebastian ou devo lev-la a uma delegacia e deixar que tente convenc-los de sua situao?
Ela o encarou por um longo tempo, tomada de profundo dio por aquele homem. Estava queimando com o desejo de cuspir naquele rosto arrogante, de arrancar aqueles olhos azuis...
	Bem? Qual  sua deciso?
	Serei sua maldita servial por uma semana  disse, a voz trmula de raiva.  Mas prometo, Antnio, me vingar disso.
Cabea erguida, passou por ele e entrou no carro.

CAPITULO V

Antnio dei Rey possua um avio pequeno e i.moderno, que ele mesmo pilotava com destreza, o que no surpreendeu Kyra.
Sentada ao lado dele na cabine do Cessna, observando as luzes do continente se afastarem, ela pensou que nada a su-preenderia novamente.
Como poderia, aps aquele dia?
Kyra olhou para o pequeno relgio digital que brilhava no painel de instrumentos. Doze horas haviam se passado desde que sara alegremente da cabine do Imperatriz do Caribe para o que deveria ter sido um dia agradvel de turismo e compras.
Em vez disso, fora roubada, atacada, abandonada... E agora estava sendo carregada para sabe-l-para-onde por um tirano sul-americano!
Estava to furiosa com Antnio quanto consigo mesma. Como pudera ceder  chantagem dele? No era ela que no ia mais deixar os homens ditarem o que devia fazer?
Devia ter pedido a ele que a deixasse na porta da delegacia mais prxima.
Certamente no era a primeira turista a se encontrar em tal enrascada, e a polcia a ajudaria.
Kyra olhou pela janela. As luzes do continente j no eram visveis. Estavam voando sobre o mar e, exceto por uma fraca luz da lua crescente, estavam envoltos por completa escurido. Sentiu um frio no estmago.
"Meu Deus!", pensou. "O que estou fazendo?"
Virou-se na direo de Antnio, o corao disparado. Tinha de dizer-lhe que mudara de ideia e exigir que a levasse de volta  Caracas.
Mas no podia. Tudo o que lhe restava era seu orgulho, e estava determinada a sair daquela enrascada com ele intato.
No sabia por que Antnio queria humilh-la, mas preferia morrer a facilitar as coisas para ele.
Perdeu a noo de quanto tempo se passara antes de sentir o ngulo do avio mudar. Estavam comeando a descer.
Kyra apertou as mos fortemente no colo.
	Respire fundo  disse a si mesma.  Tente permanecer calma.
As luzes do Cessna iluminaram uma estreita pista de pouso construda por entre as rvores. As rodas tocaram o cho com leveza e o avio foi parando gradualmente.
Antnio desligou o motor e o silncio da noite tropical os envolveu.
	Chegamos  anunciou ele.
Kyra olhou-o. Seu corao batia to rapidamente que parecia querer romper o peito, mas seu olhar permaneceu calmo.
	Obrigada por me avisar  agradeceu.  Eu nunca teria adivinhado.
Viu o rosto de Antnio endurecer.
	J  tarde, e deve estar to cansada quanto eu. Sugiro que dispensemos os joguinhos verbais e entremos na casa.
Casa? Que casa? Ela no conseguia ver nada l fora, a no ser a escurido. Onde estavam as pessoas? Onde estavam as estradas e os carros?
	Se tem alguma pergunta que no pode esperar at ama nh para ser respondida, faa-a agora.
Tinha uma dezena de perguntas, mas preferiu ficar calada, no se rebaixaria a pedir uma nica explicao sequer.
	O qu? Nenhuma pergunta?
	No.
	Otimo.  Ele sorriu.  Nesse caso, bem-vinda  minha ilha.
Kyra observou-o abrir a porta e pular para o cho. Teve vontade de rir, histrica. Bem-vinda  minha ilha? Tinha de estar brincando. "Bem-vinda  minha morada, disse a aranha  mosca".
	Kyra?
Ela aproximou-se da porta. Antnio estava no cho, olhando-a, com a mo estendida em sua direo.
D-me sua mo  disse ele.  Vou ajud-la a descer.
Ela olhou para baixo. No podia calcular a que distncia estava do cho, a escurido e o medo, no permitiam. Mas teria pulado do Empire State Building sem pra-quedas se essa fosse a alternativa para no aceitar um favor de Antnio.
	Posso descer sozinha  declarou, mas assim que pulou do avio, Antnio pegou-a nos braos.
	No aja como tola, Kyra. No viu a altura da qual acabou de pular? Podia ter se machucado e...  Sua voz falhou. No desejara o contato fsico entre ambos, apenas tentara ajud-la. Ainda assim, quando sentiu as mos de Kyra em seus ombros, seu corpo ficou tenso.
Quis coloc-la logo no cho, afastar o contato das mos macias, o calor da respirao dela contra seu rosto. Mas no pde. Era como estar em um sonho onde tudo acontecia em cmera lenta: os seios dela roando levemente contra seu peito, a pele macia das pernas queimando suas mos...
Por que a trouxera para a ilha?, pensou Antnio, fora uma deciso idiota e impensada. E da que ela precisasse de uma lio de humildade? Aquela no era uma pea teatral, era sua vida. E tinha mais o que fazer do que ficar lutando contra seus hormnios por uma semana inteira.
Ser que no aprendera nada com o passado?
J cometera o mesmo erro antes, h tanto tempo que a memria era apenas um sussurro. Na poca, era jovem e ingnuo demais para saber que nada tornaria seu sangue azul o suficiente para atrair uma princesa de gelo, pelo menos fora da cama.
	Droga, Antnio, quer me colocar no cho?
Antnio piscou. Ela no estava apenas se debatendo para sair de seus braos, estava tambm tremendo por ter sido tocada por ele. Respirou fundo, e colocou-a no cho.
	Desculpe-me  disse com sarcasmo.   que no h mdicos em San Sebastian. Caso se machucasse, que utilidade teria para mim?
	Que comovente!  Kyra levantou o queixo. Era difcil parecer calma e despreocupada quando ainda tremia ao lembrar do calor dos braos dele envolvendo-a. Como podia faz-la sentir-se daquele modo? Kyra forou um sorriso desdenhoso.
	 Fico imaginando se se preocupa tanto assim com seus outros empregados.
	No se preocupe. Vou me certificar para que haja feno limpo no calabouo, e j que amanh  sbado, reforarei sua rao de po e gua com as sobras da cozinha.
	Que senso de humor adorvel!
	Voc acha?  Pegando-a pelo brao, ignorou sua tentativa de libertar-se e levou-a para uma caminhonete estacionada ao lado da pista.
Kyra permaneceu em silncio enquanto Antnio a conduzia at a casa por uma trilha cercada de altas rvores. Atravessaram pesados portes de ferro batido.
A casa estava escura, mas Dolores havia deixado as luzes de fora acesas e ele pde vislumbrar dois de seus cachorros correndo em direo  caminhonete, balanando a cauda alegremente.
	So mastins?
Ele encarou Kyra.
	So uma mistura de mastim e outra raa. Mas no a machucaro a menos que...
Kyra abriu a porta da cabine e desceu.
	Cuidado!
Antnio pulou do carro, mas os enormes cachorros j se aproximavam de Kyra.
	Ol, queridos  dizia ela com suavidade.
Os ces a encaravam em silncio. Um deles deu um passo em sua direo.
	Que lindos vocs so  murmurou ela.  Venham aqui para que eu possa v-los melhor.
Os animais se aproximaram cautelosamente. Antnio sabia que no havia perigo real; ele mesmo treinara os ces e eles obedeceriam a seu comando instantaneamente.
Franziu o cenho enquanto a observava. Ningum que vinha  ilha, nem mesmo os enormes e musculosos trabalhadores braais, tinha coragem de se aproximar daqueles cachorros. Entretanto, l estava aquela mulher alta e magra ajoelhando-se em frente aos ces e abraando os enormes pescoos.
	So maravilhosos!
Kyra olhava para ele, os braos ao redor dos cachorros e um sorriso radiante nos lbios.
	Voc  uma mulher tola. Sequer considerou que os ces poderiam machuc-la.
	Bem, voc disse que no o fariam.
	Voc saiu do carro antes que eu terminasse de falar.
	Bom, eu...  Sorriu novamente, um pouco incerta, mas sem soltar os ces.  Realmente no achei que fossem perigosos. Sempre amei os cachorros e estes so to magnficos...
Antnio cruzou os braos. Queria dizer-lhe que nunca deveria julgar uma criatura pela beleza. Mas havia algo na cena que Kyra lhe proporcionava, que conseguia dispersar totalmente sua fria.
	Bem, pelo visto tambm gostaram de voc  disse ele, sorrindo.  Tem cachorros em sua casa?
	Oh, no.  Encarou-o, o sorriso se desvanecendo.  Sempre quis um, mas...
	Mas?
	Meu pai no aprovava. Dizia que cachorros eram bichos imundos, que no serviam para nada e...  Levantou os ombros, no querendo continuar a conversa.  Quais so os nomes deles?
Antnio hesitou.
	Brutus? Thor? Zeus?
Ele riu.
	No exatamente. O maior chama-se Dengoso e o menor Dunga.
Kyra riu.
	Deu-lhes os nomes dos sete anes?
	Queria que tivessem nomes que os separassem definitivamente de suas vidas antigas.  Estendeu as mos, acariciando as cabeas dos ces.  Encontrei-os num beco em Nova York e trouxe-os para c. Estavam muito maltratados.
	Bem, agora so uns doces. As pessoas sempre falam to mal de mastins.
	Falam pior ainda de raas impuras.
Havia uma amargura na voz de Antnio que Kyra no escutara antes. Olhou-o espantada.
	Nunca havia pensado nisso, mas sim, suponho que seja verdade.
	Sei que  verdade.  Os olhos dele estavam distantes e um longo momento se passou antes que lhe indicasse os degraus que levavam  casa,
	Vamos. J  tarde e presumo que esteja exausta.
Kyra percebeu que no adiantava negar. Estava to cansada que sentia a cabea pesada...
	Sim, estou. Eu...
Desequilibrando-se, estendeu a mo para apoiar-se no corrimo mas, antes que o fizesse, Antnio pegou-a nos braos. Kyra sentiu-se enrubescer.
	Ponha-me no cho!
	Farei isso assim que me certificar de que tenha uma cama macia sob voc, e no degraus de pedra.
Ela se lembrou da advertncia dele de que no havia mdicos na ilha e, caso se machucasse, no teria nenhuma utilidade para Antnio. Mesmo assim, sua respirao se alterou ao sentir-se to prxima aele.
	Ponha os braos ao redor de meu pescoo, Kyra.
Ela hesitou, o tom de Antnio fora brusco, to impessoal quanto o motivo de estar carregando-a nos braos.
Vagarosamente, enlaou o pescoo dele. Seus dedos roaram os cabelos negros e sedosos da nuca, e teve de lutar contra o desejo de enterrar os dedos na farta cabeleira e beijar o pescoo bronzeado...
No precisava ter pego Kyra no colo. Ela empalidecera e sentira tontura devido ao estado de exausto em que se encontrava. Tudo o que deveria ter feito era ampar-la e ajud-la a subir os degraus.
Tentava convencer a si prprio de que aquilo no significava nada, mas sabia que no era verdade,
Se ao menos ela enterrasse os dedos em seus cabelos, se puxasse sua cabea e o beijasse... Seu corpo doa de desejo por ela, e ele se odiava por isso.
	Kyra?
Sua voz era um sussurro em meio ao silncio da noite. Kyra levantou os olhos, que refletiram a luz da lua, cintilando como estrelas.
	Kyra  repetiu ele, e, baixando a cabea, beijou-a nos lbios.
Os lbios dela eram macios como veludo e doces como mel. Antnio gemeu baixinho quando Kyra fez o que ele sonhara, enterrando as mos em seus cabelos, puxando-o para mais perto, forando-o a aprofundar o beijo.
E foi exatamente o que ele fez, a lngua acariciando os lbios e o interior da boca de Kyra, fazendo-a gemer de desejo.
	Senor dei Rey?
Antnio ergueu a cabea. Os degraus estavam iluminados pela luz que vinha da porta de frente, agora aberta. Antnio deu um passo atrs, tentando controlar-se e esconder-se nas sombras.
	Dolores?
	Si, senor.  A governanta, uma pequena e robusta senhora, vestida em um robe de flanela, olhou para fora cautelosamente.  Ouvi os cachorros, mas ningum entrou, ento...
	Antnio  murmurou Kyra.  Coloque-me no cho. Por favor.
	Perdoe-me por t-la acordado, Dolores  disse ele, ignorando o pedido de Kyra.
	No, no, senor. Estava lendo quando...  Arregalou os olhos quando Antnio saiu de seu esconderijo nas sombras da noite.  Est com uma mulher, senor?
	Sim  admitiu Antnio.
	Est doente?  O tom da mulher era agora preocupado.
	Apenas cansada.  Subiu as escadas e entrou no hall iluminado, os passos ecoando no piso de cermica.  Teve um dia longo e muito difcil.
	Ah, entendo  respondeu Dolores.
Antnio sabia que ela no estava entendendo coisa alguma. Nunca trouxera uma mulher ali antes. No que Kyra estivesse ali pelo motivo que Dolores imaginava.
	Senor?  Dolores hesitou.  Devo preparar algo para ela comer?
	tima ideia. Uma sopa talvez. E alguns sanduches.
	Claro. E devo levar tudo ao quarto de hspedes? Ou ela vai dormir em...
	Oh, pelo amor de Deus!  A voz de Kyra soava impaciente.  Sou perfeitamente capaz de responder por mim mesma. E no sou um... um saco, que precisa ser carregado, muito obrigada!
Antnio ergueu a sobrancelha.
	Voc est cansada e eu s estava...
	Sim, j me explicou. Est tentando me proteger de tropear ou escorregar e quebrar meu pescoo, para que no tenha de se incomodar com alguma emergncia mdica.  Kyra contraiu os lbios furiosa.  Quer me soltar?
	Ah, sehor, se no vai precisar de mim...
	Pode ir  Antnio tambm estava furioso, mas no a olhou.  Prepare algo para nossa hspede comer. Eu a levarei at o quarto.
	No sou uma hspede  retrucou Kyra, irada, enquanto Dolores se retirava.  Onde ela est indo? Ser que est acostumada a v-lo carregar suas vtimas at o quarto enquanto se debatem?
	Voc no se debatia minutos atrs, querida  disse ele em voz baixa, enquanto subia as escadas.  Estava calma e passiva, e se no houvssemos sido interrompidos por Dolores, certamente teria deixado que eu a possusse ali mesmo nos degraus, com a lua prateada iluminando seu corpo nu.
Kyra sabia que era verdade, o que a enfurecia ainda mais. No sabia explicar o que acontecera. Antnio a tocara e ela perdera todo contato com a realidade. Esquecera tudo o que ele lhe fizera, todo dio que sentia.
S o que importava era seu beijo. Seu toque. A deliciosa sensao de ter os braos fortes e musculosos enlaando-a, e as batidas rpidas do corao dele contra seu peito...
Antnio abriu uma porta e entrou em um quarto iluminado pela luz da lua. Uma enorme cama de dossel ocupava o centro do aposento.
Kyra debateu-se com toda fora que lhe restara.
	Solte-me agora, seu... seu tirano!
	Cuidado com o que me diz, Kyra.
	Voc se aproveitou de mim l fora. Sabe que  verdade!
Eu no estava ciente do que fazia. Eu...
Perdeu a respirao quando Antnio a jogou no centro da cama.
	Estou lhe avisando, Antnio, se me tocar s vai piorar as coisas. Darei queixa de voc...
Ele riu. Kyra queria soc-lo, mas em vez disso agarrou a primeira coisa que viu, um relgio de porcelana sobre o cria-do-mudo e jogou-o na direo de Antnio, mas ele se esquivou e o relgio se despedaou contra a parede.
	Droga, o que  to engraado?
	Voc. Realmente acha que estou to desesperado a ponto de desejar uma mulher de lngua ferina, magra e desgrenhada como voc?
Kyra enrubesceu.
	No foi o que demonstrou alguns minutos atrs.
Sem dar importncia ao comentrio, Antnio continuou.
	Alm disso, veio aqui por sua prpria vontade. E quanto a dar queixa de mim... Sabe muito bem que no existe auto ridade alguma nesta ilha, a no ser eu mesmo!
Aps uma breve pausa, Antnio acrescentou:
	Dolores a acordar pela manh e lhe dir o que tem a fazer. Eu lhe prometo, Kyra, que nunca mais esquecer sua estada nesta ilha.
Dizendo isso, saiu, batendo a porta atrs de si.
Kyra ficou parada por algum momento, e ento pulou em direo  porta, trancando-a.
Ficou ouvindo os passos de Antnio se afastarem e, s ento, encostou-se na porta e deixou que as lgrimas que segurara durante toda a noite rolassem livremente.

CAPITULO VI

Kyra no tinha a mnima inteno de esperar ..que a governanta a acordasse na manh seguinte. No deixaria que Antnio a tratasse como uma prisioneira. No precisava ser acordada ou escoltada at a cozinha.
Sentada em sua -cama, ficou admirando a luz suave e dourada da manh caribenha. Tinha de admitir que o quarto era lindo, mobiliado com diversos estilos que, de algum modo, uniam-se em uma beleza magnfica.
Andou at a janela e admirou a vista. Seu quarto dava para o jardim dos fundos da casa, que resplandecia com as cores dos trpicos. A distncia, dava para avistar uma faixa de mar azul.
Um homem andava vagarosamente no jardim em direo  casa. Kyra escondeu-se atrs das cortinas. Era Antnio, reconheceu de imediato, apesar de nunca t-lo visto vestido to casualmente antes. Mesmo com short jeans, camiseta branca e tnis, ele parecia...
Magnfico!
Ele parou, colocando as mos nos bolsos traseiros do short e olhando fixamente para o mar. A brisa agitava-lhe os cabelos negros e o sol dava-lhes um brilho irresistvel.
Kyra passeou o olhar pelo corpo msculo. A camiseta de malha se distendia sobre os ombros largos e as pernas longas e musculosas enfatizavam a poderosa masculinidade que dele emanava.
Ela passou a lngua sobre os lbios ressecados, tentando controlar a sbita onda de desejo que percorria seu corpo. Se pelo menos eles houvessem se conhecido em outras circunstncias... Em um lugar como aquele, lindo e relaxante e...
Estaria ficando completamente louca? O lugar no mudaria os fatos. Antnio dei Rey era o que era: aristocrtico, imperioso e incapaz de perdoar. Era um tirano inflexvel e de sangue frio.
Sangue frio? No. No se podia dizer aquilo. Ele a tomara nos braos e a beijara com uma paixo que tirou seu flego e derreteu sua oposio. Kyra sentiu a garganta fechar. Seria um talento inato ou teria Antnio trabalhado para refinar-se na arte de seduo?
Impaciente, afastou-se da janela. Devia preocupar-se apenas em como passaria os prximos dias tendo o mnimo de contato com o seor del Rey.
Andou com determinao em direo ao banheiro. Tirou as roupas ntimas, colocou-as sobre uma cadeira e entrou no chuveiro.
Quando acabou, enrolou-se em uma enorme e felpuda toalha branca que se encontrava dobrada sobre um banquinho e reparou que o banheiro estava completamente equipado, inclusive com cremes, loes e outros cosmticos.
Evidentemente, Antnio estava acostumado a receber visitas femininas. Kyra duvidava que ele permitisse que elas ficassem naquele quarto. Com certeza, as levaria para seu quarto, o que as agradaria imensamente. Nada como dormir ao lado dele uma noite inteira, para acordar em seus braos na manh seguinte sentindo o calor do sol e o calor de seus beijos em todo o corpo e...
Quanta bobagem, pensou Kyra, olhando seu reflexo no espelho.
Pegando um robe de seda detrs da porta, Kyra vestiu-o e voltou para o quarto.
	Bom dia.
Antnio estava sentado na cama, ainda desfeita, recostado nos travesseiros, a cabea apoiada nas mos e as pernas cruzadas na altura dos tornozelos.
Kyra encarou-o como se fosse um fantasma.
	Dormiu bem?
Recuperando a fala, ela perguntou:
	Como... Como entrou aqui?
	Que importa?
Claro que importa! A porta estava trancada. E o que aconteceu com a sua governanta? Era ela quem viria me acordar, no voc!
Ele ergueu os ombros preguiosamente.
	Dolores estava ocupada, ento decidi acord-la eu mesmo.  O olhar de safira percorreu o corpo de Kyra.  Mas posso ver que j se levantou.
Ela corou. O robe era longo, sabia que ele no podia ver nada a no ser os ps descalos. Mesmo assim, sentiu-se como se estivesse nua  sua frente.
	Devia ter imaginado que voc tinha outra chave, e que no hesitaria em us-la, Antnio.
	Ah, querida, suas palavras me machucam.  O tom era leve e brincalho, assim como o sorriso que lhe lanou.  Na verdade, no tenho uma chave, mas sua porta tambm no tem um trinco. Pelo menos, no um que funcione. Devia ter lhe contado.    -
	Sim  disse Kyra com aspereza.  Devia mesmo. Tambm devia saber que, quando uma porta est fechada, deve bater e esperar at que lhe peam para entrar.
	Outra falsa acusao  Antnio levantou-se e aproximou-se.  Eu bati vrias vezes. Mas voc no respondeu.
	Claro que no. Estava no chuveiro. No pensou nisso?
	Para se sincero, pensei.  Os olhos percorreram seu corpo novamente, desta vez demorando-se na curva dos seios, acentuada pela seda do robe.  Pensei: ela est provavelmente tomando um banho, e quando terminar, voltar ao quarto, a pele mida e cheirando a... seria lils?
O corao de Kyra disparou. Afastar-se, mesmo que fosse alguns centmetros, seria admitir que estava amedrontada. E no estava. No havia o que temer. J se convencera disso.
	E sabonete. E pode economizar suas cantadas baratas. No estou impressionada.
Antnio sorriu.
	Talvez meu presente a impressione mais do que minhas palavras.
	Estou lhe dizendo, est perdendo seu tempo. No estou interessada.
	Mesmo? Foi sugesto de Dolores. Ela achou que voc gostaria de roupas limpas.  Virou-se e pegou algo de cima da cama.  No tem problema. Vou lev-las de volta e...
	Espere um pouco.  Kyra estendeu a mo e segurou-o pelo brao. A pele era quente e firme, e ela sentiu uma corrente eltrica percorrer-lhe o corpo. Puxou a mo rapidamente, enfiando-a no bolso do robe.  Eu... No pensei que estivesse se referindo a roupas.
Antnio fitou-a.
	O que esperava, jias? Mas uma mulher como voc, deve ter todas as jias que deseja.  Olhou-a por um longo momento e ento suspirou, estendendo-lhe as roupas.  No serviro muito bem em voc, mas foi o melhor que pude conseguir.
Kyra pensou em Dolores, que devia ser pelo menos vinte centmetros mais baixa e provavelmente dez quilos mais gorda que ela.
	No tem problema  disse ela, desdobrando as roupas. 	No quero estar na moda, s quero me sentir lim...  Parou de falar abruptamente, olhando para Antnio.  Estas roupas no so de Dolores!
	No, no so, so minhas.
	Suas? Mas... mas...
	Mas o qu? No poderia usar as roupas de Dolores. E muito mais magra e alta.  Ele hesitou.  Mas se preferir...
	No  Kyra engoliu em seco. No se sentiria confortvel usando as roupas dele, mas conseguiu sorrir educadamente.
	Voc est certo. No me importo em usar roupas masculinas. 
Antnio sorriu.
	Suponho que isso  o mais prximo que chegar seu agradecimento por haver lhe trazido um guarda roupa de top model.
Kyra tambm sorriu.
	Comparado  ideia de ter de vestir as mesmas roupas de ontem, isto  alta costura.  Respirou profundamente. Obrigada.
Ele encarou-a fixamente.
	No tem de qu.
Kyra fitou-o. Estavam to prximos que podia se ver refle-tida nas pupilas dos olhos cor de safira. Desviou o olhar.
	 s isso?  perguntou.
Antnio estendeu a mo e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela.
	S isso o qu?  disse, sem deixar de encar-la.
	 s isso que veio fazer aqui?
O olhar dele desceu para seus lbios, e ento voltou a concentrar-se em seus olhos.
	O que mais gostaria que eu fizesse?
A voz era macia e rouca. Kyra ficou arrepiada e deu um passo atrs.
	Eu... Eu s quis dizer que, se j acabou de conversar, gostaria de ficar s para me vestir.
	Que pena  disse ele com suavidade.  Que queira vestir-se, quero dizer. Preferiria que ficasse como est.
	Antnio  Kyra esforou-se para parecer natural.  Sei que pode achar essa invaso divertida, mas...
	Divertida no, querida. Iluminadora.
Com os dedos, percorreu o caminho da face de Kyra at seu pescoo e, apesar da suavidade do toque, podia sentir um rastro de fogo deixado pela carcia.
	No... No faa isso.
	Fazer o qu?  Antnio arqueou as sobrancelhas.  Toc-la?
	Sim.  Sua respirao acelerou-se quando ele passou a mo em seu pescoo.  No... no gosto disso.
Ele sorriu, mas seus olhos no sorriam. Estavam escuros e ardentes.
	E por isso que posso sentir sua pulsao disparada aqui, em sua garganta?
Era verdade, ela sentia o corao bater com fora e o sangue ferver em suas veias. No havia como negar.
	Antnio...  Tentou desesperadamente achar palavras para defender-se, no dele, mas da onda de calor que a envolvia, privando-a do raciocnio.  Antnio, no estou...
	O qu?
	No quero que faa isso. Por favor.
	Ah, querida, sabe qual  o problema?  que sou de carne e osso, e no resisto quando sinto o calor de sua pele sob minhas mos.  Ele se aproximou ainda mais.  Nem quando vejo o modo como inclina a cabea para trs, e ento abre os lbios...  Kyra tremeu quando ele segurou seu queixo e obrigou-a a encar-lo.  Sou to humano que acho que deseja meu beijo, assim como eu desejo o seu...
		No  sussurrou Kyra.
Os lbios dele cobriram os dela com um toque to suave quanto o de uma borboleta sobre a ptala de uma flor. Ela suspirou quando ele se afastou e a fitou, reparando no rubor que cobria seu lindo e delicado rosto.
Ela estivera certa, pensou Antnio. No devia ter feito aquilo.
Era loucura!
Ento por que seu sangue fervia cada vez que a tocava? Por que sentia tanta necessidade de peg-la nos braos, de beij-la e explorar sua boca doce e macia?
Havia apenas um modo de tir-la da cabea. Tinha de possu-la. E sabia que podia fazer isso neste momento. Apesar das palavras iradas de Kyra, de suas negativas, ele podia ver a verdade nos olhos acinzentados e sentir a resposta do corpo dela em seus braos.
Beijou-a novamente, desta vez com mais determinao, e segurou o cordo do robe, abrindo-o. Ela no tentou impedi-lo, pois ele no sabia mais se poderia ser detido. Seu controle lhe escapara. Seu corpo estava tenso, nunca havia sentido tanta urgncia em sua vida, e ainda assim queria demorar horas tocando-a, explorando-a, vendo os olhos dela brilharem como fogo.
Ele afastou o robe dos ombros de Kyra com mos trmulas. Queria olhar para baixo e ver se seus seios eram to perfeitos quanto imaginava, mas tambm queria observar o rosto dela enquanto a acariciava.
	Antnio  disse ela com determinao.  Antnio, por favor...
Kyra nunca havia imaginado que sentiria tamanho prazer, que enlouqueceria nas mos de um homem. Como poderia ter imaginado que um simples beijo faria seus seios ficarem doloridos?
Nunca antes encontrara um homem como Antnio. Estava sendo seduzida por um especialista, um expert que havia dito que preferiria fazer um voto de castidade a fazer amor com ela.
Aquele pensamento atingiu-a como uma flecha e ela enrijeceu o corpo nos braos de Antnio, enquanto seu crebro lutava para controlar as ondas de desejo que percorriam seu corpo.
Antnio fora at seu quarto com um nico propsito. Seduzi-la. Conquist-la. Puni-la com a maior das humilhaes possveis.
E ela quase cara em seu jogo.
Empurrou-o pelos ombros com toda fora que ainda lhe restara, surpreendendo-o.
	Droga!  disse ela.  Solte-me imediatamente.
Sentiu uma pontada de satisfao ao v-lo afastar-se, confuso.
	Querida, o que foi?  perguntou ele.
	Desista Antnio.  Suas mos tremiam ao tentar amarrar o robe.  Essa cantada de amante latino apaixonado no funciona comigo.
Ele a encarava como se ela houvesse enlouquecido. Bem, chegara perto. Quando pensava no que quase deixara que ele fizesse...
	E assim que consegue suas mulheres? Trazendo-as at aqui e... No sabe reconhecer quando uma mulher quer que pare?
O rubor de paixo desapareceu das faces de Antnio. Olhou-a com firmeza, os olhos indecifrveis.
: Se  assim que age quando quer que um homem pare  disse ele, o tom seco , ento eu gostaria de saber como age quando quer que ele continue.
	Muito bem. Talvez eu... Talvez tenha dado a impresso de que desejaria que voc... me beijasse. Mas...
	Mas?
	Mas eu no queria ir muito longe.
Antnio riu.
	Voc  uma mentirosa.
	V em frente, minta a si mesmo, se  o que seu ego deseja.
	Terei de provar isso a voc?  Ele se aproximou, a expresso perigosa, e Kyra quase caiu na tentativa de afastar-se. Antnio sorriu.  Ento, est ou no mentindo, querida?
	Certo? Eu admito que... que respondi as suas carcias. E da? J respondi s carcias de vrios outros homens.  A mentira era to enorme que ela quase engasgou, mas pelo menos funcionou. Antnio parou de sorrir imediatamente.  Suponho que s queria ver se um homem como voc poderia... poderia...
	Queria saber se um homem como eu poderia o qu?
Ela encarou-o enquanto tentava encontrar uma resposta. Admitir que ele quase a seduzira estava fora de questo, mas tinha de dizer alguma coisa, ento disse a primeira mentira que lhe ocorreu.
	Escute, estava curiosa, est bem? Queria ver se voc... se voc poderia excitar-me.
	E...  A voz era perigosamente macia.
	E descobri que pode. Mas... mas a ideia de ir mais longe, quero dizer, quando percebi o que estava fazendo, e com quem estava...
Ela gritou quando ele a segurou pelos ombros.
	Para uma mulher vestindo apenas um robe, voc ou  muito tola ou muito corajosa.
A ameaa f-la corar e seus olhos escureceram com o medo.
Aquela viso agradou a Antnio. No era um homem que gostasse de amedrontar s mulheres, mas aquela era diferente. As Kyras Landon do mundo tinham de saber que no podiam simplesmente fazer joguinhos com os plebeus sem pagar um alto preo por isso.
Soltou-a e afastou-se, pegando as roupas que deixara sobre a cama.
	Vista-se  disse friamente, jogando as roupas a seus ps.  Quando estiver pronta, v at a cozinha, e Dolores lhe dir o que fazer. Lembre-se, ainda  minha empregada.
	Saia daqui  disse ela, a voz trmula.  Maldio, Antnio, saia daqui.
Ele encarou-a e sorriu vagarosamente.
	Com prazer. Alis, tenho algo a lhe dizer. O insucesso de seu experimento no se deve unicamente a voc. Eu podia ter tomado o que me ofereceu. Mas no- teria sido uma experincia memorvel para mim, Kyra. Entende? Voc  linda e desejvel, mas no  a nica.
Assim que fechou a porta, ouviu o barulho de algo chocando-se contra a porta. Um abajur provavelmente, pensou ele, e apesar da raiva, no pde deixar de rir.
Ela tinha coragem, tinha de admitir. Bem, em breve ele saberia at onde aquela coragem a levaria.

CAPITULO VII

Vestida com o short jeans e a camiseta de Antnio, calando suas prprias sandlias, Kyra estava pronta para enfrentar o dia  sua frente.
Fechou a porta do quarto, respirou fundo e desceu as escadas. Hesitou um pouco ao chegar ao andar trreo e notar a enormidade e a beleza da casa de Antnio. As paredes brancas erguiam-se majestosas at encontrarem o teto trabalhado. Havia plantas por toda parte e enormes janelas de vidro deixavam o sol tropical penetrar no ambiente. A moblia em cores claras, era simples, porm linda, e complementava de maneira harmoniosa a arquitetura da casa.
Era impossvel deixar de comparar aquela casa com o ambiente onde ela crescera. A manso dos Landon era um atestado de riqueza e poder. A casa de Antnio era diferente. Ele certamente sabia como fazer uma casa parecer um lar.
O que provava como as aparncias podiam enganar, pensou Kyra, estremecendo. Aquela casa podia ser um lar para Antnio, mas para ela no passava de uma priso.
A cozinha era enorme, iluminada pela luz do sol e repleta de plantas. Uma porta de correr, de vidro, deixava  vista o ptio de tijolos.
Kyra parou, incerta. Esperava que Dolores estivesse ali, pronta para lhe dizer o que fazer, mas a cozinha estava vazia. Kyra apanhou uma xcara e encheu-a com o caf fumegante que estava em um bule sobre o fogo.
Enquanto bebia, a porta do ptio se abriu e Dolores entrou carregando uma cesta de palha cheia de tomates, cebolas e pimentes. Ao notar a presena de Kyra, ergueu as sobrancelhas e sorriu educadamente.
	Buenos dias, senorita.  Fechou a porta e dirigiu-se ao refrigerador.  Perdoe-me por t-la feito esperar. Se me disser como deseja seus... Ay, como se llama huevos?
	Diz-se "ovos", Dolores  interrompeu Kyra, em espanhol.
	Eu falo sua lngua. Ontem  noite falou com o seor del Rey como se eu no estivesse presente, mas eu lhe garanto, sou perfeitamente capaz de entender cada palavra que diz.
Os olhos negros de Dolores no demonstraram arrependimento.
	Eu no tinha como saber que falava a minha lngua, senorita  disse ela.  Desculpe-me se a ofendi.
Kyra sustentou o olhar direto por um momento e ento suspirou.
	Desculpe-me. No sei por que estava descontando minha raiva em voc...  Aps uma pausa, acrescentou:  Bem, estou s suas ordens.
Dolores pareceu no compreender.
	Senorita?
	O que quer que eu faa? Limpe a casa? O estbulo? Quer que eu esfregue o cho? Diga-me o que fazer e eu obedecerei.
A governanta a olhava como se houvesse perdido o juzo.
	Se me dissesse o que deseja para o desjejum, senorita Landon...
	Pode me chamar de Kyra. E farei meu prprio desjejum, se voc me disser onde encontro os alimentos.
Dolores pareceu chocada.
	Por favor, senorita, v para a sala. Levarei tudo o que quiser l.
	No sou uma hspede aqui, Dolores. Seu patro no lhe contou nada?
	No  uma hspede? No compreendo. Se no est hospedada aqui, ento o qu...
	A senorita Landon est aqui para trabalhar para mim.
Kyra virou-se em direo  voz. Antnio estava na cozinha, as mos na cintura e as pernas afastadas.
	E no tem de servi-la. Ela far a prpria comida, e ento pode coloc-la para trabalhar.
Dolores piscou, confusa.
	Seor, por favor, eu no poderia...
	Pode dar-lhe qualquer tarefa que desejar, Dolores, se bem que eu suspeite que ela ser incapaz de fazer algo um pouco mais difcil. Talvez possa aprender a esfregar o cho.
Kyra no pensou. Simplesmente reagiu e atirou a xcara de caf na direo de Antnio. A xcara espatifou-se ao lado dele, derrubando gotas de lquido marrom por todos os lados.
Por alguns momentos, nada aconteceu. Ento Dolores fez o sinal da cruz e murmurou uma reza em espanhol, enquanto Antnio aproximava-se de Kyra e, antes que ela pudesse afastar-se, segurou-a pelos ombros, os olhos escurecidos pela raiva.
	Sua estada aqui no vai adiantar nada se continuar a fazer o papel de menina mimada, Kyra.
	S vou melhorar meu comportamento quando voc sumir de minha vida!
Os olhos de Antnio soltavam fascas. Vagarosamente, ele a soltou.
	Limpe j essa sujeira.
Dolores deu um passo  frente.
	No! No, no  necessrio, seor. Eu mesma...
	Limpe tudo agora!
Kyra colocou a mo no brao de Dolores.
	Voc no precisa fazer isso. S queria que minha pontaria fosse melhor.
	Devia estar feliz por ter errado o alvo  respondeu ele.
Esperou at que Kyra comeasse a recolher os pedaos de loua do cho e ento virou-se para a governanta.
	Lembre-se do que eu disse, Dolores. Se a senhorita Landon quiser ter um lugar para dormir e comer, vai ter de trabalhar.
E assim dizendo, saiu da cozinha. Dolores parecia impressionada.
	O que est acontecendo? A quem ele se referia?
	Se referia ao modo brutal como trata as pessoas  respondeu Kyra, furiosa.  Esse homem  um cnico.
	No! Seorita, no devia falar assim. O seor  um bom homem. Nunca o vi nesse estado antes.
Kyra limpou o cho com uma toalha molhada.
	Sim, por que deixa que lhe d ordens, em vez de exigir que pea. Voc poderia conseguir um emprego melhor que esse a qualquer hora! Por que aguenta esse homem?
	Est errada. Juro que o sehor Antnio  uma tima pessoa.  Comeou a tirar os tomates da cesta que trouxera, deixando claro que no queria mais conversa.  Desculpe-me, sehorita, mas tenho de trabalhar. Kyra assentiu.
	Tudo bem. Diga-me o que tenho de fazer. Vamos, Dolores, no me olhe com essa cara. Ouviu o que seu patro disse. Se no me colocar para trabalhar, ele provavelmente nos colocar a po e gua.
Sorriu e, aps um momento, Dolores retribuiu o sorriso.
	Bem, talvez pudesse esvaziar a lavadora de louas...
	Perfeito. E depois?
	Depois? Hum, se desejar, pode cortar as cebolas e os pimentes. Para o jantar, si?
Kyra assentiu novamente.
	Sem problemas.
Meia hora mais tarde, Kyra percebeu o erro que cometera. Aquele trabalho aparentemente fcil revelara-se um enorme problema.
No que nunca houvesse cortado vegetais antes. Stella sempre tivera cime de sua cozinha mas, s vezes, deixava Kyra ajud-la na preparao das comidas.
Mas as cebolas de sua casa nunca haviam sido to fortes quanto as que agora descascava. No conseguia parar de chorar. Fungando, espirrando e tentando enxugar as lgrimas com as costas das mos, Kyra sentia-se exatamente to intil quanto Antnio previa que seria.
O que tornava o fato ainda mais importante era que tinha de completar aquela tarefa. Olhou para Dolores disfaradamente, mas a governanta continuava ocupada, de costas para ela. Ento, rangendo os dentes, continuou cortando e fatiando as cebolas. E sofrendo em silncio.
Algum tempo depois, Dolores enxugou as mos no avental e olhou para Kyra.
	Pronto  disse.  Terminei de preparar a carne. Agora...  Arregalou os olhos, horrorizada.  Oh, seorita, o que aconteceu? Est chorando!
Kyra afastou os cabelos do rosto e tentou sorrir.
	No estou chorando.
	Est sim! Ay, caramba, matarei o seor com minhas pr prias mos por faz-la to infeliz.
	 verdade  soluou Kyra.  No estou chorando. So as cebolas. 
	Seorita, mas isso  terrvel. Rpido, lave as mos e o rosto e ento...
	O que diabos acontecendo aqui?
O tom furioso de Antnio assustou-as. Dolores olhou para ele, o rosto lvido de raiva.
	A sehorita machucou-se, e  tudo sua culpa.
	Minha? Sou culpado por ela ser incompetente?
As palavras de desdm de Antnio ficaram entaladas em sua garganta quando olhou para Kyra. Sentiu-se como se seu corao houvesse se partido em mil pedaos.
Aquele rosto lindo e delicado estava encharcado de lgrimas, inchado e vermelho. Apoiada na pia, ela soluava como se estivesse agonizando.
O que o orgulho e a raiva dele haviam feito a ela?
Aproximou-se rapidamente, afastou Dolores e segurou Kyra pelos ombros.
	O que foi, querida?  Com o olhar atento, olhou para suas mos e braos, no vendo nada de errado ali. Suspirou aliviado.  Kyra, onde se machucou?  perguntou com gentileza.
Ela no conseguia parar de chorar.
	No estou machucada  soluou.
Antnio ficou nervoso.
	Como pode continuar sendo to teimosa em um momento como esse? Dolores! Diga-me o que aconteceu!
Dolores fez um gesto de impotncia.
	Ela estava cortando cebolas e...
	Droga!  disse Kyra, furiosa.  Pare de fazer isso. Sou perfeitamente capaz de contar o que aconteceu. Estou tentando lhe dizer que no me cortei nem nada parecido.
	Ento por que est chorando?
	No estou chorando! Foram essas cebolas miserveis. Fizeram meus olhos lacrimejarem.  to difcil assim de entender?
Antnio enrijeceu os msculos.
	Deixe-me compreender. Est se debulhando em lgrimas por causa de algumas cebolas?
Kyra levantou o queixo orgulhosa.
Ento tente cort-las voc, sua excelncia?
Antnio franziu o cenho. Droga de mulher! Como podia ser to orgulhosa e petulante quando o pequeno nariz ainda estava rosado e inchado e os lindos olhos acizentados ainda brilhavam com as lgrimas?
Ele sorriu e Kyra olhou-o com firmeza.
	O que  to engraado?
	Nada  disse ele rapidamente.  Nada.
	Otimo. Porque quero voltar logo para o meu trabalho antes que voc decida prolongar a minha sentena para com pensar esta interrupo!
Antnio suspirou.
	Desculpe-me por impor a sehorita Landon a voc, Dolores. Eu devia ter imaginado.
	Sim  disse Dolores.  Devia mesmo. Tratar uma mulher com tanta descortesia, francamente sehor...
A governanta continuou reclamando quando Antnio levou a relutante Kyra para o ptio.
	Aonde est me levando?
	Onde posso vigi-la melhor.
Ela encarou-o enquanto ele a conduzia atravs do jardim.
	Qual o problema? Tem medo que eu o processe?
	Cometi um erro. Devia ter testado suas habilidades antes de coloc-la para trabalhar.
	No tenho habilidades, lembra-se? Foi voc mesmo quem disse.
	Talvez eu tenha me enganado.
	Hah! O grande Antnio Rodrigo Cordoba dei Rey, enganar-se? No achei que isso fosse possvel.
Antnio abriu um porto de madeira e empurrou Kyra para dentro. Ela sentiu os aromas familiares de cavalos, couro e feno.
	Fale baixo. Vai assustar meus cavalos.
	Ora, no  um amor? No quer que seus cavalos se aborream.
	Correto. rabes tm um temperamento muito delicado.
	Devia ter me dito que tinha cavalos.
	Por qu? No est- aqui para passar o tempo cavalgando.
	Por que sei algo sobre cavalos.
	No tenho tempo para o passatempo dos ricos, Kyra. Meus cavalos no so treinados para exposies.
Kyra fitou-o.
	E engraado o modo como fala dos ricos, como se no fosse um deles.
	 verdade. Sou rico. Mas no nasci assim.
	Ah, e isso muda tudo, no ?
Antnio comprimiu os lbios com o sarcasmo na voz dela.
	Estamos falando de voc  disse friamente , no de mim. Diga-me o que pode fazer para ganhar seu sustento sem se machucar.
	Posso cuidar de seus cavalos. Escov-los, limpar as baias...

	Contrato homens para esse tipo de servio. Voc deve saber algo mais alm disso.
	O qu?  inquiriu ela.  Algo til? Voc mesmo disse que no sei fazer nada til, Antnio, a menos que precise de algum que saiba se  melhor servir um cabernet ou um Pinot Noir com certos tipos de carne.
Estava furiosa mesmo, concluiu Antnio. Suas faces estavam coradas e seus olhos brilhavam como gelo aps uma chuva de inverno.
De repente, sentiu-se arrebatado por um desejo to forte que assustou-se. Tinha de sair de l, ir para fora onde pudesse respirar, onde a proximidade de Kyra, to feminina e suave, no o enlouquecesse como fazia naquele momento.
Como uma mulher com o rosto ainda inchado de tanto chorar e vestindo camiseta e bermuda enormes podia ser to linda? To desesperadamente desejvel?
	Voc est bloqueando minha passagem  disse ele bruscamente, passando por ela.
Ela o seguiu.
	Qual o problema, Antnio? Est comeando a pensar que no fez um bom negcio? Percebeu o quo intil sou e...
Antnio agarrou-a pelos braos, sacudindo-a com fora.
	Fique quieta  disse furiosamente.  Pare de me provocar...
Com um suspiro desesperado, sua boca cobriu a dela.
A reao de Kyra foi instintiva. Pulou para trs, ou pelo menos tentou. Um brao de Antnio segurou-a com fora contra o trax musculoso.
	Essa  a tarefa que melhor lhe convm  disse ele selvagemente.  Voc pertence aos meus braos e minha cama, e sabe disso.
	No! Maldio, Antnio...
	J estou amaldioado  sussurrou ele, a voz rouca.  amaldioado por meu desejo por voc. Pare de lutar contra mim e contra si prpria. Admita que sente o mesmo.
	No  repetiu ela.  No...
Ele a beijou novamente, dessa vez um beijo mais ardente e apaixonado. Kyra enrijeceu o corpo todo... e ento com um suspiro, deixou que o desejo que tentara reprimir pela manh em seu quarto, tomasse conta de seu corpo. Antnio estava certo. Ela o desejava como nunca imaginara que desejaria um homem.
Encostou-se ao corpo de Antnio, segurando-o pelos braos e abrindo os lbios para seu beijo.
Antnio encostou-se na parede, puxando-a para junto de si.
	Kyra  murmurou.  Kyra, mia exquisita...  Mordiscou o lbio inferior dela e mergulhou as mos nos cabelos sedosos, forando-a a encar-lo.  Quero voc agora. No posso esperar mais.
Ela sentiu a pulsao acelerar.
	Aqui?  sussurrou  No estbulo?
	Si. Ningum nos perturbar. Os homens saram com alguns cavalos.
	Mas... mas...  Prendeu a respirao quando as mos de Antnio foraram caminho por dentro de sua camiseta e tocaram os mamilos rijos.  Antnio... Antnio...
Ele tirou a camiseta e jogou-a num canto do estbulo. Kyra levantou as mos instintivamente para cobrir a nudez dos seios, mas Antnio segurou-a pelos pulsos.
	No. No se esconda de mim, Kyra. Ah, voc  to linda!
Kyra prendeu a respirao, imvel, enquanto ele soltava suas mos e acariciava novamente os mamilos rosados, fazendo-a gemer de prazer.
	Gosta quando acaricio seus seios  disse ele com a voz rouca.  Diga-me do que gosta. Diga o que deseja.
	Eu quero... quero...  Ela umedeceu os lbios com a ponta da lngua. Ento disse as palavras que se recusara a dizer todo aquele tempo.  Oh, Antnio! Quero voc!
Antnio pegou-a no colo e beijou-a com ardor. Ento carregou-a at um canto do estbulo coberto de feno limpo e de aroma adocicado. Colocou-a no cho com delicadeza, beijando-a ao mesmo tempo, e ento pegou uma manta branca de uma prateleira e abriu-a sobre o feno, deitando-se ali e puxando Kyra para seu lado.
	Sonhei muito com isso  sussurrou.
	Mesmo?
	S. Sonhei em beij-la, tambm.  Beijou seus lbios.  Em tocar seus seios.  Deslizou as mos por seu corpo, fazendo-a gemer de prazer.  Em possu-la.
Abriu o zper do short e deslizou a mo por sua barriga. Kyra suspirou ao sentir os dedos dele tocarem o centro de seu desejo.
	Querida...
	Antnio  murmurou ela, os olhos arregalados.  Espere...
	Beije-me  murmurou ele contra sua boca.
Ela obedeceu e sentiu as lnguas se tocarem sensualmente enquanto as mos de Antnio continuavam a percorrer seu corpo, causando-lhe arrepios de prazer.
	Antnio. Antnio, eu nunca...
Ele sorriu e, virando o rosto, beijou a palma de sua mo. Ento afastou-se e tirou a camisa, colando o corpo ao dela novamente.
O contato com a pele de Kyra era algo simples, mas mais ertico do que ele jamais imaginara. Beijou-a, sentindo a doura de sua boca. Olhou-a nos olhos. Os dela estavam escuros, com as pupilas dilatadas pelo desejo. Com delicadeza ele tirou o short dela.
A viso do corpo despido a sua frente era mais do que ele podia suportar. Era a mulher mais linda que j vira. Seus seios eram redondos e firmes, a cintura delgada, os quadris suavemente curvos e pareciam feitos para caber em suas mos.
Antnio beijou-a novamente, perdendo-se na doura e calor de sua boca, e ento levantou-se e tirou a prpria bermuda.
Kyra prendeu a respirao ao v-lo despir-se. Seu corpo gritava pedindo para que ele a possusse, mas sua mente a prevenia de que se fizesse amor com ele, sua vida nunca mais seria a mesma.
Mas era tarde demais para raciocinar com clareza. Antnio estava  sua frente, os olhos azuis como o mar, as faces coradas de desejo, e o corao de Kyra bateu descontroladamente.
Ele era magnfico. Os ombros eram largos, os braos e as pernas bronzeados e musculosos. Tinha de toc-lo. Imediatamente!
Antnio sorriu e deitou-se a seu lado novamente. Kyra observou seu rosto, as feies maravilhosas e arrogantes, e sentiu uma emoo to linda e pura que seus olhos se encheram de
lgrimas.
 Querida?  Antnio fitou-a.  Por que est chorando? -"Porque acabei de perceber que o adoro", pensou Kyra, mas apenas balanou a cabea e estendeu os braos para ele.
Aquele gesto despedaou o corao de Antnio. Beijou-a apaixonadamente, posicionou-se entre suas pernas e, com toda delicadeza possvel, penetrou-a.
Ele desejava ser delicado, mas no conseguiu controlar-se. Seu desejo era forte demais. Com um gemido ele tentou ir adiante, mas foi detido pela virgindade de Kyra.
Todos os msculos de seu corpo se enrijeceram. Achou que seu corao fosse explodir ao perceber que seria o primeiro homem a conhecer os segredos dela, o primeiro a faz-la estremecer em xtase.
 Antnio  soluou ela.  Por favor... Por favor...
Com determinao, ele a beijou. Ento, puxando-a para mais perto de si, abraou-a e seguiu adiante.

CAPITULO VIII

Os franceses tinham um ditado que Kyra aprendera anos atrs com uma de suas tutoras, Ma-dame Dufour: "Por mais que as coisas paream mudar, elas sempre permanecem as mesmas".
Agora, enquanto Kyra se aconchegava nos braos de Antnio, admirando o pr-de-sol dourado no mar azul, pensou em como seria maravilhoso se pudesse encontrar sua antiga professora.
	Voc estava errada  diria a ela.  Oh, estava extremamente errada.
As coisas mudavam sim. E haviam mudado muito para ela, pensou, o corao cheio de amor.
Pouco mais de uma semana atrs, a mente confusa e perdida, ela embarcara em uma simples aventura, esperando encontrar o caminho de seu destino.
Agora sabia que seu destino estava nos braos de Antnio.
Seu mundo mudara, e tudo porque fora a uma apresentao de dana a qual nem quisera ir, reservara uma passagem em um navio que sequer conhecia, fora roubada por um ladro nas ruas de uma cidade onde tudo era desconhecido...
No pde deixar de sorrir quele pensamento.
Antnio apertou-a ainda mais.
	O que foi?  Ele beijou seus cabelos.
	Nada. S estou pensando em como estou feliz.
Beijando-a nos lbios, Antnio brincou.
	Ficar ainda mais feliz quando formos dormir esta noite.
As palavras pronunciadas em tom rouco fizeram-na corar e rir ainda mais.
	Antnio! Dolores pode ouvi-lo.
	Dolores est na cozinha preparando um banquete que vai fingir ser o jantar leve que pedi.  Sorrindo, ele envolveu a cintura de Kyra com um brao e ajudou-a a levantar-se, conduzindo-a pela trilha do jardim. Os ces, Dengoso e Dunga, bocejaram, levantaram-se tambm e saram trotando na frente.  Minha governanta est realizada, graas a voc. Kyra riu encarando-o.
	Aposto que ela est feliz por eu no ter mais de ajud-la.
Antnio pensou no que Dolores lhe dissera esta manh, que nunca o vira assim to feliz. Mas no podia admitir isso a Kyra, mesmo sabendo que era verdade. Ainda no estava pronto para se entregar to completamente.
	Si. Ela me agradeceu por ter tirado voc da cozinha. Eu respondi que era um sacrifcio, mas que valia a pena, pois assim pelo menos eu teria minhas refeies servidas na hora certa.
Ele riu quando Kyra se postou  sua frente, fingindo-se indignada.
	E eu achando que voc fosse me fazer um elogio! Devia saber que...  No pde terminar a fala, pois Antnio pegou-a nos braos e beijou-a apaixonadamente.
	Voc me fez feliz tambm, querida  disse suavemente, segurando seu rosto com ambas as mos.  Esse elogio est bom para voc?
	Sabe que sim. E quero que saiba que estou mais feliz do que j estive em toda minha vida.
Antnio olhou-a nos olhos.
	 verdade?
	Sim. Oh, Antnio, eu...  parou no meio da frase.
	O qu? O que ia dizer, Kyra?  insistiu ele.
"Que eu amo voc."
As palavras estavam na ponta de sua lngua, mas no conseguiu diz-las. Se pelo menos Antnio as dissesse primeiro, se pelo menos a pegasse nos braos e a beijasse e dissesse, "Kyra, mia querida, eu adoro voc."
	Kyra?  Os olhos de Antnio estavam indescritveis.  Diga-me no que est pensando.
Com dificuldade, ela sorriu.
	Soque... Que em algum lugar de Caracas, h um ladro que nunca saber a boa ao que fez ao roubar a bolsa de uma ingnua gringa.
Antnio sorriu, mas sentiu-se decepcionado. O que esperava que ela fosse dizer? Algo mais, algo que lhe daria liberdade para dizer que...
Abraou-a novamente, recomeando a andar.
	Si  respondeu.   irnico o que o destino nos reserva.
Irnico? Aquele fora o dia mais feliz de sua vida, pensou ela, apoiando a cabea no ombro dele. Descobrira o paraso.
No dia anterior, aps terem feito amor pela primeira vez no estbulo, Antnio a levara de volta  casa. L, no silncio de seu quarto e na maciez de sua cama, ele a amara novamente, dessa vez com lentido e determinao, e a levara aos mais altos picos do prazer e plenitude.
A noite, haviam jantado no ptio,  luz de velas. Antnio no se cansava de repetir como era linda.
	Mais linda que qualquer mulher que j conheci  dissera ele.
Se Dolores se surpreendeu ao notar que a gata borralheira virara uma princesa da noite para o dia, escondera muito bem seus sentimentos.
E havia um leve- ar de riso nos olhos da governanta que esquentou o corao de Kyra.
Aps o jantar, haviam danado no ptio iluminado pelo luar. Danaram, beijaram-se e acariciaram-se at que Antnio a pegara no colo e a levara para o quarto.
A noite se passara com exploraes mtuas, carinhos e paixes explosivas, e amanhecer nos braos de Antnio foi a melhor parte de todas.
E naquele dia... Ele selara dois cavalos e eles haviam cavalgado pela praia at uma enseada em forma de meia-lua cercada de coqueiros.
	Que linda!  exclamara Kyra, e ele respondeu que sim, ela era mesmo muito linda.
	No estou me referindo a mim  dissera ela rindo, mas Antnio a pegara nos braos e a possura ali mesmo, sobre a areia quente e macia da praia.
Essa lembrana fez Kyra estremecer de prazer. Antnio abraou-a.
	Est com frio querida?
	No, estou bem. Estava s pensando em...  sentiu-se ruborizar.  Nada. Nada importante.
	Era um pensamento bom ou ruim?
Kyra riu.
	Bom, mas nem tente adivinhar o qu. Se lhe contasse, ficaria ainda mais insuportvel do que j .
Antnio soltou uma gargalhada.
	Esse  mais um dos maus adjetivos que devo acrescentar  lista dos que voc j usa para me descrever?
	Bem, voc os mereceu. Mas suponho que, caso no fosse como , no haveria me arrastado at seu covil.
Antnio forou-a a encar-lo. Afastou uma mecha de cabelo que cobria seu rosto, colocando-a atrs da orelha delicada.
	Eu no a teria trazido para c, se voc no fosse to cabea-dura, tola e impossvel.
	Eu? Impossvel?  Kyra riu.  Voc  que  impossvel Tnio, no eu.
Ele acariciou seu rosto.
	Diga isso novamente  sussurrou.
	Dizer o qu?
	O modo como me chamou...
	Tnio? Algo errado? Quero dizer, se no gosta...
Beijando-a, Antnio respondeu.
	Adoro que me chame assim.  que nunca ningum me deu um apelido.
Kyra franziu o cenho e encarou-o.
	O que quer dizer? Nunca o chamaram de Tnio ou qual quer outro apelido carinhoso?
	Por que est to surpresa?
	Como o chamavam ento?  continuou ela, espantada.
	Quando?
	Como quando? Quando voc era pequeno, claro!
Ele ficou srio, os olhos sombrios.
	Chamavam-me de vrios nomes, mas nenhum que se pudesse classificar de apelido carinhoso.
	No compreendo.
Antnio ergueu os ombros num gesto de descaso.
	No  importante.
	Mas...
	Vamos, conte-me sobre voc. Como a chamavam quando era uma garotinha? Kyra riu.
	O que quer dizer com "quando eu era uma garotinha"?
No que diz respeito a meus irmos, sempre serei uma garotinha e continuaro me chamando de Cisquinho.
	Cisquinho? Por qu?
	Bem, refere-se a algo pequenino e insignificante.
	E isso  afetuoso?  inquiriu ele, as sobrancelhas arqueadas.
	Se conhecesse Cade, Zach e Grant, voc entenderia  respondeu Kyra.
	Tem trs irmos?
	Sim. S que, s vezes, quando no esto ocupados, intrometem-se em minha vida com a fora de um batalho.
Antnio assentiu.
	Esto preocupados com seu bem-estar.  uma pessoa de sorte por ter uma famlia que se preocupa com voc.
	Sei disso, mas...
	Nunca tive uma famlia.
As palavras simples foram ridas.
Kira parou de andar e virou-se para ele.
	No teve famlia? Mas Dolores disse...
	O qu?  O tom de voz era cortante.  O que aquela mulher tola andou lhe dizendo?
	Nada, na verdade. S disse que sua me e ela eram da mesma vila e que seu pai era espanhol.
	Ela fala demais.
	Dolores no quis prejudic-lo, Antnio.
Ele suspirou.
	No  disse aps alguns momentos.  Sei que no.  verdade. Eu tive uma me e um pai, mas eles no me criaram.
	Por qu? O que aconteceu Com seus pais?  Kyra sentiu Antnio ficar tenso. Desculpe-me  acrescentou rapidamente.
 Sei que no  da minha conta e...
	Meu pai veio para a Amrica do Sul a negcios.  Ergueu os ombros.  Fiquei sabendo da histria pela minha av. Contou-me que minha me e ele se conheceram... provavelmente meu pai nunca soube que minha me havia engravidado. Depois que nasci, minha me sumiu para sempre.
Kyra sentiu a garganta fechar.
	Oh, Tnio  falou com suavidade.  Deve ter sido horrvel...
Ele afastou-se dela.
	No lhe contei isso para que tenha pena de mim  disse com frieza.  S lhe contei... por que me perguntou sobre minha famlia.
Ela no perguntara nada, ele dissera tudo voluntariamente. Era uma sutil diferena, mas Kyra sabia que tinha um enorme significado. Mas no havia tempo para pensar naquilo, no naquele momento. Estava ocupada demais em se controlar para no envolver Antnio com os braos e dizer-lhe que no havia nada de errado em sentir compaixo, especialmente pela pessoa amada. Limpando a garganta, ela disse simplesmente:
	Entendo.
Mas no entendia nada. Quem o criara ento? Teria ficado com parentes? Ou em um orfanato? O que quer que fosse, estava feliz por no haver contado a ele sobre o pai dominador ou os irmos que sempre a tratavam como uma mascote.
Tudo aquilo era parte de sua vida... mas seria tolo e insignificante para um homem cuja infncia fora passada sem amor e o calor das pessoas que se preocupassem com ele.
Kyra queria fazer vrias perguntas, mas a expresso carrancuda de Antnio avisou-a que o momento no era apropriado. Colocou a mo sobre o brao dele e, quando ele se virou, beijou-o na boca.
	Queria ter conhecido voc quando era um garotinho disse com suavidade.
Antnio olhou-a por um longo momento. Ento pegou-a nos braos e apertou-a to fortemente que ela no conseguiu respirar.
	Querida  sussurrou.  Venha para a cama comigo agora.
Kyra sentiu-se corar.
	Mas... E Dolores?!
Ele sorriu.
	Ela j tem idade suficiente para entender o que se passa entre dois amantes.
Amantes, pensou Kyra, o corao enlevado. Amantes. Era uma palavra linda, maravilhosa.
	Tnio...  murmurou ela.  Meu Tnio...
Antnio a beijou, a boca quente e faminta at que ela se abandonou, abraando-o pelo pescoo.
	Venha para a cama, querida  disse ele com a voz rouca.  Preciso de voc agora.
	Sim  murmurou ela. Antnio pegou-a nos braos, carregando-a at o quarto. Fechou a porta, e a noite e as estrelas
se tornaram apenas uma vaga lembrana para eles.
Horas depois, Antnio acordou.
J era tarde. Aquele horrio quando a escurido e o silncio so to pesados quanto o silncio da alma. Virou a cabea e olhou para Kyra, deitada a seu lado, sobre seu brao.
Gentilmente, para no perturb-la, ele se inclinou e beijou-a nos lbios. Ela suspirou e se aconchegou ainda mais em seus braos.
Sentia o corao arder s de olhar para ela. Era to linda. E to teimosa, pensou ele sorrindo. Nenhuma mulher o enfrentara como Kyra fizera. Nem tampouco um homem. As pessoas o bajulavam h uma dcada; era Antnio Rodrigo Crdoba dei Rey, e mesmo que algum, em algum lugar, suspeitasse da verdade, que ele fora um dia um garoto que quase no sobreviveu para se tornar um homem, que seu pai sequer sabia de sua existncia... de que importava? Era rico, importante... Ningum ousava desafi-lo.
Somente Kyra. Era a nica pessoa com quem ele se abrira, falara de sua vida, seu passado. No contara tudo, mas dissera o suficiente. Mesmo as coisas que Jssica soubera a seu respeito no haviam sado de seus lbios. O pai dela lhe contara tudo sobre a histria do passado de Antnio e...
E Jssica quase o destrura. O sorriso de Antnio se desva-nesceu. Pensara estar apaixonado por ela. Como havia sido tolo! Devia ter imaginado que as lies que aprendera na infncia nunca mudariam. O amor era uma mentira criada por poetas.
Agora, aos trinta e dois anos, ele sabia que o amor era uma piada. Seria to fcil pensar que estava apaixonado por Kyra. Era to linda. Vibrante. Excitante. O som de sua voz e o perfume de sua pele o excitavam de tal modo que no conseguia explicar. E ela lhe deu o presente mais lindo que possua: sua virgindade.
Ficara emocionado e feliz. Mas no era estpido o suficiente para chamar o que sentia de amor.
Olhou para Kyra novamente, adormecida em seus braos. Sentiu o corao apertar. No, pensou, aquilo no era amor.
Aproveitariam o que tinham enquanto aquele sonho durasse. Uma semana. Um ms. E ento...
Kyra murmurou algo, suspirou e rolou para o lado. Antnio esperou, ergueu-se um pouco e levantou a coberta para percorrer as curvas deliciosas do corpo dela com os olhos.
O desejo que percorreu suas veias no o surpreendeu. O carinho que sentiu, sim. Lutou contra o desejo de acord-la, peg-la nos braos e sentir o calor da pele dela contra a sua.
Cobriu-a novamente, levantou-se silenciosamente e foi at a sacada.
A brisa noturna trazia o aroma do mar at a casa. Fechou os olhos, lembrando-se de outro perfume, o de camlias, que ele havia por anos identificado com Jssica.
Qual o problema com ele esta noite? Havia esquecido Jssica anos atrs, entretanto, nesta noite, no conseguia tir-la da cabea. Talvez fosse melhor lembrar-se de cada detalhe, pensou ele, suspirando. Isso podia apaziguar as lembranas torturantes.
Um oficial de justia o tirara da vila onde estava quase morrendo e o colocara em uma escola jesuta, onde fazer trs refeies decentes por dia, ter um teto sobre a cabea e sua prpria cama, podia ser considerado um paraso.
Aos dezessete anos, ele ganhou uma bolsa para uma universidade americana.
Foi para Boston, onde no conhecia ningum, mal falava a lngua inglesa e no conseguia se comunicar. Estava sempre sem dinheiro. Sentia-se muito solitrio.
Um de seus professores, um homem rico e aristocrtico, tivera pena dele. Em um elegante gesto de generosidade, decidiu ajudar Antnio.
Em poucas semanas, Antnio estava absorvido no seio da famlia aristocrata do professor.
Ou pelo menos assim pensava.
Aprendeu muito com eles. Aprendeu a sorrir, conversar, dividir, enfim, deixou transparecer o que os missionrios haviam visto desde o princpio: que por detrs daquele homem rude, havia uma mente inteligentssima e disposta a aprender.
E, inevitavelmente, ele se apaixonou pela filha do professor.
Seu nome era Jssica. Era loira e terrivelmente sofisticada. Antnio limitou-se a espi-la com o canto dos olhos e sonhar. O professor era seu mentor e ele no desejava fazer nada que o contrariasse.
Mas Jssica tornava aquelas ideias elevadas impossveis. Tocava suas pernas sob a mesa de jantar e no se cansava de enviar-lhe olhares maliciosos.
Finalmente, ela conseguiu vencer os princpios de Antnio. Em sua ingenuidade, ele acreditara que ela o amava, tanto quanto ele estava certo de am-la.
Arrumou um segundo emprego, trabalhou duro e conseguiu dinheiro suficiente para comprar um anel de noivado. Quando a pediu em casamento, ela riu em sua cara. Antnio fechou os olhos contra a dor que a lembrana lhe trazia.
	Casar-me?  dissera.  Com voc? Antnio, querido, certamente sabe que isso nunca acontecer, no ?
Ele deixou a escola no dia seguinte, voltou  Amrica do Sul e trocou o anel por equipamentos. Enfiou-se na selva, trabalhando durante meses em condies sub-humanas com a minerao de pedras preciosas.
Um ano mais tarde, ele percebeu que nunca amara Jssica realmente. E tornara-se um milionrio.
Desde ento, pde ter todas as mulheres que desejava, e sempre escolhia aquelas com o sangue to azul como o de Jssica. Mas nunca permanecia com nenhuma mais de uma noite.
At Kyra aparecer em sua vida. Ele fizera amor com ela e agora no queria que partisse...
	Antnio?
Sentiu um frio no estmago ao ouvir a voz de Kyra. Virou-se e viu-a recostada no travesseiro. A luz tnue da lua iluminava seu rosto e pescoo, deixando-a ainda mais linda.
Ele prendeu a respirao. Kyra, pensou. Minha Kyra.
Kyra sorriu, levantou a mo e, num gesto de sensualidade inconsciente, afastou uma mecha de cabelos do rosto.
	Tnio  disse com suavidade.  Volte para a cama.
Ele a encarou. Como podia pensar em afastar-se dela? No podia. Por tudo mais sagrado, no podia!
	Tnio? Parece to estranho... Aconteceu alguma coisa?
Ele atravessou o quarto rapidamente, deitou-se ao lado dela e pegou-a nos braos.
	Sim  sussurrou.  Algo pssimo, querida. J faz muito tempo que no fazemos amor.
Beijou-a e puxou-a contra si, dizendo-lhe com seu corpo o que no admitia sequer a si mesmo.
Muito tempo mais tarde, quando o sol j comeava a aparecer sobre o horizonte e Kyra dormia em seus braos, ele percebeu que era hora de parar de fingir.
Ele, o homem que desdenhava o amor, estava apaixonado. Aquilo deixou-o petrificado.

CAPITULO IX

Kyra abriu os olhos devagar, sentindo-se segura  aquecida nos braos de Antnio. Alguma vez na vida sentiu-se to feliz?
No precisava pensar na resposta. Sabia com certeza que amava Antnio e que ele a fazia mais feliz do que nunca.
Sorrindo, apoiou a cabea em um brao e observou-o dormir. Parecia to jovem, como um garotinho. Um cacho de cabelos negros e sedosos caa-lhe sobre a testa e sua expresso era tranquila.
Para no acord-lo, ela se inclinou e beijou-o com doura nos lbios. Ele suspirou e mexeu os braos, mas no acordou.
 Eu amo voc  sussurrou Kyra.
E amava mesmo, de todo corao.
Havia ido at o Caribe para se encontrar, e conseguira. Descobrira que era uma mulher, com as necessidades, paixes e esperanas de uma mulher. Descobrira o que precisava para sentir-se completa.
Precisava de Antnio, de seu amor.
Recostou-se novamente sobre os travesseiros. Nem parecia que estava em San Sebastian h apenas trs dias. Parecia muito mais. Mas eram trs dias, o que significava que aquele dia era segunda-feira.
E significava ao menos um retorno temporrio  realidade.
Tinha de ir  Caracas e entrar em contato com a embaixada, e com a companhia martima tambm. Deviam estar pensando que ela cara no mar, ou coisa assim.
Tinha de ligar para seu gerente no banco. Precisava de dinheiro.
Kyra sorriu. Por que no pensara naquilo antes?
Sabia por qu. Deixara Denver como uma criana rebelde.
Por isso no dissera a ningum que estava partindo e tampouco quisera telefonar para pedir ajuda quando precisara.
Quanta bobagem! Era uma mulher adulta, sabia disso agora. Quisquer decises que precisassem ser tomadas em sua vida, ela as tomaria. Tudo o que fizesse ou deixasse de fazer era somente de sua conta, e no deixaria ningum mais trat-la como uma criana.
Nem sequer Antnio.
O pensamento lhe ocorreu sem motivo e, por um instante, paralisou-a; mas ela tratou de recuperar-se, percebendo o quo tola estava sendo.
Conhecia Antnio agora. Ele no era o tirano que ela imaginara. Era carinhoso e preocupado com sua secretria e com Dolores, e fizera de tudo para ajud-la, mesmo quando estavam se digladiando mutuamente. O relacionamento deles tivera um mau comeo, s isso.
Tudo mudara. Kyra olhou novamente para o rosto de Antnio, sentindo o corao criar asas ao v-lo assim to lindo e calmo, dormindo. Oh, sim... Tudo havia mudado.
Silenciosamente, foi at o banheiro, tomou uma ducha rpida e vestiu-se, descendo para a cozinha e servindo-se de uma xcara de caf. Com a xcara na mo, dirigiu-se  varanda.
 Kyra?
Antnio sentou-se rapidamente na cama, o corao disparado. Tivera um sonho horrvel, no conseguia lembrar muito bem com o que, mas algo sobre estar sozinho na ilha e Kyra t-lo abandonado.
Engoliu com dificuldade e passou os dedos pelos cabelos negros. No era homem que acreditasse em sonhos, s na realidade. E a realidade era que Kyra entrara em sua vida e ele no seria tolo o suficiente para permitir que ela se fosse.
Sorrindo, foi at o banheiro, esperando encontr-la no chuveiro, e j antecipando um banho a dois.
Ela no estava l. No podia ter ido a lugar nenhum, ele sabia mas, no entanto, seu sonho insistia em vir-lhe  mente.
E se ela quisesse partir? O que ele diria? No tinha o direito de mant-la l, no mais. Trouxera-a para a ilha como uma prisioneira, agora, ele  que era o prisioneiro. Ela aprisionara seu corao.
Balanou a cabea. Ela no deixaria a ilha. No agora. Dissera a ele que estava feliz; por que fugiria da felicidade? Ainda tinha tempo. Muito tempo. Durante os prximos dias ele diria a ela como se sentia. Mostraria  ela, no somente fazendo amor, mas tratando-a como uma princesa. Comearia naquela manh mesmo, tratando da reposio de seu passaporte e visto. E a levaria para fazer umas compras. Sorriu, pensando em como ela ficava sexy com suas roupas. Mas ela certamente desejaria ter suas prprias roupas, e ele trataria de compr-las.
Ento, quando a hora certa chegasse, ele lhe diria.
Amo voc, querida, e tudo daria certo pois ela no era como Jssica, tampouco ele era o garoto tolo que fora.
Assobiando baixinho, Antnio entrou no chuveiro.
Kyra estava em p no ptio, bebendo o delicioso caf de Dolores e observando os rabes de Antnio correndo no prado.
Foi uma boa ideia ter se levantado cedo e vindo at o ptio para organizar seus pensamentos.
No adiantava preocupar-se antes da hora. Pediria a Antnio que a levasse at Caracas, onde comearia a organizar sua vida e...
Um par de braos fortes abraou-a.
	A est voc  disse Antnio. Seu tom era caloroso, ainda que um pouco brusco. Virou-a de frente para si e deu-lhe um longo e amoroso beijo.  Procurei-a por toda parte. Devia ter me dito que viria at aqui para ver os cavalos.
	Voc estava dormindo  disse ela, sorrindo.

	Si. Nesse caso devia ter avisado Dolores.
O sorriso de Kyra perdeu um pouco o brilho.
	Por qu?
	Bem, porque... porque...  "Porque eu no saberia o que fazer se voc houvesse me deixado", pensou ele. Mas disse simplesmente:  Estava preocupado.
	Com o qu? Nada pode me acontecer aqui, Antnio.
Ela estava certa,  claro. O que o preocupara no tinha nada a ver com a realidade, apenas com o amor. Mas como podia dizer-lhe aquilo?
	 verdade  retrucou ele, com seriedade.  Mas essa  minha ilha e eu sou responsvel pelo bem-estar e a segurana de todos aqui.
O sorriso de Kyra se desvaneceu totalmente.
	Entendo.  Afastou-se e olhou para o prado de novo.  Talvez eu devesse bater o carto na entrada e na sada da prxima vez.
Antnio estremeceu. Estpido, disse a si mesmo, estpido! Gentilmente, colocou as mos nos ombros dela.
	Querida  disse com suavidade.  Perdoe-me.  s que...
que acordei e tentei abra-la, mas voc no estava l, e de repente minha cama pareceu enorme e solitria.
Aquelas palavras tocaram o corao de Kyra profundamente. Ela suspirou, virou-se para ele e colocou as mos no trax musculoso.
	Vamos comear novamente. Bom dia, Tnio.
	Bom dia, querida.  Beijou-a carinhosamente e abraando-a, acrescentou.  Eu tenho um plano.
	Um plano?  Kyra riu.  Parece srio.
	Bem, no  srio, mas importante. Por mais que eu deseje mant-la aqui  minha merc, sem documentos ou roupas, decidi que isso est errado.  Segurou o rosto dela com as duas mos.  Vou lev-la at Caracas para que possa providenciar um passaporte e um visto novos.
	E roupas.
Ele riu.
	E roupas, si.  Fitou-a nos olhos.  Espero que mesmo aps conseguir tudo isso, escolha permanecer aqui, comigo.
Por quanto tempo? pensou ela, mas apenas balanou a cabea.
	Sabe que ficarei.
O corao de Antnio quase parou. Sua mente estava repleta de palavras de amor, mas sua lngua no conseguia formul-las. Ainda havia tempo. Bastante tempo.
	Ento est combinado, sim?
	Sim. E fico feliz por ter mencionado irmos  Caracas. Eu ia justamente pedir-lhe isso. Quero dizer, pensei em vrias coisas que tenho de providenciar, e...
Antnio beijou-a com suavidade.
	E cedo demais para uma linda mulher perder tempo pensando.
Era um belo elogio, mas os olhos de Kyra se anuviaram.
	Estou falando srio, Antnio.
	E eu tambm. Mesmo, no precisa preocupar sua linda cabecinha com nada. J pensei em tudo.
Kyra riu.
	Quanta modstia! O que quer dizer quando diz que j pensou em tudo?
	Bem, como eu disse, apesar de adorar sua aparncia em minhas roupas, sei que quer suas prprias coisas.
	Oh,  verdade. Vou telefonar para o meu banco e...
	No h necessidade. Eu a levarei para fazer compras. Tudo o que comprar ser pago por mim.
	E muito generoso, Antnio, mas eu no permitiria.
	Bobagem!  Antnio fez um gesto imperioso com as mos, um gesto que a deixava louca de raiva.  Eu pagarei por tudo. No h nada a discutir.
	Est errado  Kyra limpou a garganta.  Eu acho que... Acho que h muitas coisas a discutir. Aprecio o que est tentando fazer, Antnio, mas...
	Querida, se voc desejar, podemos continuar essa conversa no avio.  Enlaou-a pela cintura.  Eu disse a sua embaixada para preparar os seus papis imediatamente e...
	Minha embaixada? Quer dizer que falou com eles?
	 claro.
	Mas... Fui eu quem perdeu o passaporte e o visto...
	E eu providenciarei para que sejam repostos.  Abraou-a e sorriu.  V, querida? No precisa mover um dedo. Eu farei tudo.
	Devia ter me perguntado primeiro, Antnio.
	Perguntado o qu? Tudo isso tinha de ser feito, no ?
	Esse no  o ponto. Sou perfeitamente capaz de...
	Mia querida,  assim to terrvel o fato de eu querer cuidar de voc?
Ela o encarou fixamente por alguns momentos, ento soltou em profundo suspiro.
	No, claro que no, mas...  Ela hesitou, tentando escolher as palavras certas para no mago-lo.  O problema  que sempre tive algum tomando conta de mim, Antnio.
Quero dizer, todos em minha famlia sempre foram...
	Superprotetores. Sim, voc me contou isso.  Antnio
sorriu.   bom saber que voc foi to cercada de amor a vida toda.
	Sim, pode ter o seu lado bom  disse ela, com cuidado.  Mas meu pai...
Kyra parou de falar e encarou-o. Como explicar que pensar por algum, proteg-lo da vida real, fazendo-o viver sempre uma extenso de sua prpria vida, no era amor?
Como dizer aquilo quando sabia que ele nunca tivera ningum que se preocupasse com ele? Era como explicar o modo como seus sapatos novos apertam seus ps a um homem sem sapato algum.
	Tnio  disse.  Por favor, tente entender. Eu agradeo e aprecio sua preocupao comigo. Mas ns...
	Si...  Antnio fitou os lindos olhos de Kyra e sentiu um aperto no corao. Como pudera achar que aguentaria esperar para dizer que a amava? Queria contar-Lhe que a amava, pedi-la em casamento, sentir a alegria de v-la sorrir e dizer "sim". Respirou fundo.  Si. Voc e eu, Kyra.  sobre ns dois que quero falar.
O corao de Kyra quase parou.
	Voc?  disse ela, os olhos fixos nos dele.  Voc... e eu?
	Sim.  O que estava errado com ele? Era um tolo, gaguejando como uma criana. E aquilo no era necessrio. Kyra o amava, sabia disso. Limpou a garganta.  Sei que s nos conhecemos h poucos dias e que... que nossa educao  muito diferente.
	Sim  disse Kyra rapidamente. Estava com as mos estiradas sobre o peito dele e sentiu seu corao disparado.  Sim, so diferentes.  isso que estou tentando lhe dizer, Antnio.  complicado, mas... tentarei explicar. Sabe, meus irmos so bem mais velhos que eu. E sempre foram muito protetores.
	Claro, entendo-os perfeitamente. Que homem no desejaria proteg-la, querida?
	E meu pai... Como posso explicar? Ele tinha certas espectativas para mim...
Antnio sentiu o corpo enrijecer.
	Espectativas?
	Sim. Tinha minha vida toda planejada. Estava determinado a me fazer conhecer somente certas pessoas e fazer certas coisas que...
	Sim. Entendo.
	Eu tinha de ir de encontro s espectativas dele, Antnio. No tive escolha.  Kyra balanou a cabea.   como... uma obrigao familiar. Uma lista de regras que nunca so mencionadas, entretanto voc sabe que tm de ser obedecidas para o resto de sua vida.
	Eu repito, Kyra, entendo tudo isso.  Ele sorriu, mas o sorriso no alcanava os seus olhos.  Voc cresceu cheia de privilgios, e eu no, mas isso no significa que eu no acredite em espectativas e regras, tambm.
	Esse  exatamente o ponto! Parece pensar que eu gostaria de sair de uma vida imposta para outra.
Antnio cruzou os braos sobre o peito.
	Os princpios que governam minha vida no so to di ferentes dos seus. Imaginei que os aceitaria.
Droga, por que ele estava sendo to irascvel?, pensou ela.
Estava se tornando novamente naquele tirano frio e impossvel que fora, antes de se tornarem amantes. Ela tentava faz-lo entender que nunca mais danaria conforme a msica de algum e ele assegurava-lhe arrogantemente que ela danaria, sim, se ele fosse o msico.
	Antnio  disse, tentando no perder a pacincia.  Tente ver isso do meu ponto de vista. Cresci em uma... casa enorme...
	Sim. Uma manso.
	Cheias de armadilhas do poder e do dinheiro.  Com a mo, indicou a linda casa de Antnio.  No era em nada parecida com este lugar, Antnio, em nada.
Ele sentiu o sangue inundar suas faces.
	No sou estpido, Kyra. O quadro que pinta  muito claro. Cresceu como uma princesa em um castelo.
Kyra riu, nervosa.
	Rapunzel?  Tentou brincar.  Sim, acho que  isso mesmo.
Antnio sentiu o corao gelar. Queria abraar Kyra, peg-la nos braos e beij-la at que ela se lembrasse que tudo o que lhe contara no tinha importncia perto do que sentiam um pelo outro.
Mas a verdade  que no tinha ideia do que ela sentia por ele. Assumir que o amava, estaria tirando concluses precipitadas...
Virou-se, afastou-se um pouco e ento voltou-se para ela encarando-a.
	Nada disso pareceu importar, ontem  disse, sem entonao, encarando-a.
Kyra suspirou.
	Importava sim.  por isso que hesitei tanto quanto a... a nos envolvermos.  "E por isso que tive tanto medo de admitir a mim mesma que o amava". Aquele pensamento estava claro em sua mente, mas aquele no era o momento de falar de amor, no quando Antnio parecia to frio e inatingvel. E sabia que nunca seria ela mesma se o permitisse controlar sua vida.  Acho... que teria sido melhor se voc tivesse sabido algo sobre mim antes de me haver trazido para a ilha, Antnio, mas...
	Mas voc no veio at aqui por sua vontade. Eu a trouxe at aqui.
	Sim. E eu no esperava...
	Acabar em minha cama.
Kyra estremeceu. Ia dizer que no esperava apaixonar-se.
As palavras de Antnio, frias e insensveis, colocavam as coisas sob um ngulo completamente diferente e fizeram-na corar..
	 verdade.
	E verdade que eu a trouxe para c, que no lhe dei escolha.  Mas no a forcei a fazer amor comigo.
	Nunca disse que fez isso! S estou tentando explicar porque...  Ela suspirou.  No sei como faz-lo entender, Antnio.
	Seria melhor se voc simplesmente fosse direto ao ponto.
	O ponto  retrucou Kyra, passando as mos nos cabelos exasperadamente   que temos espectativas diferentes. Eu soube disso no momento em que me contou sua vida, sua infncia... Devia ter lhe dito algo, mas no queria mago-lo.
Ela continuou falando, os olhos cinzentos fixos nos dele, mas Antnio no mais a escutava. Porque deveria, quando sabia perfeitamente o que ela iria dizer? No era bom o suficiente para ela. Ela o diria com mais tato do que Jssica o fizera, mas a mensagem era a mesma. Apesar da riqueza dele, apesar de seus sentimentos por ela, ela ainda era a princesa e ele, o plebeu. Era bom o suficiente para a paixo ardente que os acometia  noite, mas nada mais que isso.
Uma raiva to profunda invadiu-o, que no conseguia pensar racionalmente. Queria agarrar Kyra, sacudi-la, for-la a encar-lo e beij-la at que gritasse a verdade, que as espectativas que eram to importantes para ela nunca a deixariam admitir que se apaixonara pelo plebeu que a amava.
Mas no a amava. No, era apenas uma vtima da mesma tolice que o acometera anos atrs.
Mas que idiota era! No conseguia sequer desejar uma mulher por alguns dias sem tentar convencer a si mesmo de que a amava?
	Chega  disse ele, a voz fria cortando a explicao de Kyra pela metade.
	Antnio?  Ela o encarou. Seu rosto moreno estava plido e tenso.  Antnio, por favor, me escute.
	J escutei o suficiente.
	Acho que no escutou absolutamente nada.
	Mas eu escutei. E estou entediado.
Kyra corou.
	Entediado? Entediado, enquanto tento explicar como podemos resolver as coisas?
Ele sorriu com sarcasmo.
	Sei muito bem o que prope, Kyra. Quer que tudo fique como est, e continuemos a dividir a mesma cama.
Ela corou ainda mais.
	Bem, sim. Isso daria tempo de nos conhecermos e...
	Ah, querida, eu j a explorei o suficiente. Sei o que a faz gemer, o que a faz puxar-me contra seu corpo... O que mais preciso explorar?
Kyra empalideceu. No acreditava que ele reduzira tudo o que haviam dividido a tais termos. Era aquilo que acontecia quando ele no conseguia o que desejava?
Antnio percebeu a lividez no rosto de Kyra. Magoara-a profundamente, devia estar satisfeito. Mas, em vez disso, sentiu o corao despedaar-se.
	Kyra...
	No  disse ela, a voz sufocada, os braos em volta do corpo trmulo.  Eu... quero ir embora daqui, Antnio.
	Kyra, isso que eu disse...
	No me importa o que voc disse  mentiu ela, erguendo o queixo.  Quero estar em Caracas o mais rpido possvel.
Antnio estreitou os olhos.
	No sou um garotinho que recebe ordens e as obedece.
	No.  A voz de Kyra era apenas um fio.  No  um garoto Antnio.  apenas frio, mau e desprezvel...
Gritou quando ele a segurou fortemente pelos ombros.
	Tenha cuidado com o que me diz!
	Direi o que quiser!
	No, no dir!
	Escute, Antnio, pode dar ordens ao resto do mundo, mas no a mim!
	Posso sim, querida.  O tom glido f-la sentir um arrepio.  Voc  minha empregada nesta ilha. J se esqueceu?
Ou por acaso pensou que sua performance na cama pagaria suas dvidas?
Kyra sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. Como podia ter pensado que amava aquele homem? Nenhuma mulher amaria Antnio dei Rey, no se desse valor a si mesma.
	Obrigada por lembrar-me da minha posio aqui  disse ela com a voz trmula.  Est certo, Antnio. No paguei minha dvida. Mas se houver um pingo de decncia nesse bloco de gelo que voc chama de corao, deixar que eu v embora daqui neste momento.
Ele anuiu, tenso.
	Com todo o prazer. Chamarei um txi areo.
Virou-se e entrou na casa. No final da tarde, passaporte e visto nas mos, Kyra estava no aeroporto de Caracas, indo de volta para casa.

CAPITULO X

Aquele era o inverno mais frio que a populao  Colorado j vira. Mas Kyra estava ocupada demais para notar.
Retornara do Caribe cheia de energia. Em apenas uma semana iniciara um curso de computao  noite e estava organizando uma exposio de artes, que seria um estouro.
Em novembro, Zach telefonou. Queria contar que se casara em Las Vegas, no final de semana. No houvera tempo para um casamento de verdade. Ele e a noiva conseguiram dois dias de licena entre as filmagens de um novo filme.
	Quando terminarmos esse novo filme, iremos at a para uma longa visita. Voc vai adorar Eve, maninha  disse ele, e Kyra respondeu que certamente adoraria. Ficou feliz por ele, mesmo que, por algum motivo inimaginvel, a notcia do casamento houvesse trazido um n  sua garganta.
Duas semanas mais tarde, Grant telefonou.
	Voc no vai acreditar  disse ele, feliz.  Mas eu me casei! Cristie  maravilhosa. Est abrindo uma loja, sabe, ela faz jias. Coisas lindas, voc ver. Na primavera, quando tudo se acalmar, faremos uma visita. Sei que voc vai ador-la.
E Kyra novamente respondera que certamente a adoraria. E o n se formou em sua garganta de novo.
Cade no telefonou, estava no meio do nada procurando petrleo, mas da ltima vez que conversara com ele, Kyra deduzira que tambm estava apaixonado.
Todos os Landon estavam apaixonados, menos ela.
O que sentia por Antnio nada tinha a ver com amor. Tinha a ver com sexo. Antnio era um homem sexy e ela sentira atrao por ele, mas no quisera admitir isso. Criara uma fantasia de um relacionamento perfeito, mas graas a Deus no ficara presa dentro de seus prprios sonhos.
Vivia a sua prpria vida agora e, quando acordava com o rosto banhado em lgrimas e um n na garganta, sabia que no significava nada, que devia estar resfriada ou algo assim.
Em dezembro, os dias curtos e as infindveis tempestades faziam a manso parecer ainda mais sombria.
	Odeio este lugar  disse Kyra a Stella certa noite em que o vento uivava ao redor da casa.
E foi a que teve uma ideia.
No venderia a casa. Era seu lar, apesar de tudo, e amava a terra, o lago e as montanhas que a rodeavam, mas a casa podia ser modificada.
Na manh seguinte, Kyra ligou para o banco para saber de quanto dinheiro dispunha. A resposta petrificou-a. Era suficiente para derrubar a manso e reconstru-la vrias vezes.
Mas aquilo no seria necessrio. Tudo o que precisava era de um bom arquiteto, um engenheiro e um leiloeiro para vender a macia moblia da casa e as pretensiosas peas de arte.
O banqueiro ficou em silncio quando ela lhe disse seus planos. O advogado tambm, quando ela ligou para comunicar-lhe que queria usar os fundos levantados com a venda da moblia, para caridade.
	Caridade?  engasgou ele.
	Sim. Ainda no estou certa qual associao beneficiarei, portanto colocaremos o dinheiro em uma conta bancria por enquanto. Pode fazer isso?
	Bem, sim srta. Landon, mas...
	Otimo  disse Kyra rapidamente e desligou.
No se surpreendeu quando, horas mais tarde, o telefone tocou. Era uma ligao de Zach e Grant que conversaram alguns minutos sobre futilidades antes de irem direto ao ponto.
Era verdade que ela ia demolir a manso, vender toda a moblia e doar o dinheiro para a caridade?
Kyra suspirou.
	No vou demolir a casa  disse  mas sim reform-la. E no venderei tudo, se quiserem alguma coisa, so bem-vindos. E no estou doando todo meu dinheiro para caridade. Apenas o lucro da venda da moblia.
	Que caridade?  perguntou Grant.
Um fundo de bolsas de estudo para crianas americanas abandonadas, Kyra quase disse. Mas calou-se a tempo. De onde tirara aquela ideia?
	Eu... ainda no sei. Mas o que importa?
Zach limpou a garganta.
 Importa, sim  respondeu.  Voc refletiu bem sobre essa ideia maluca?
	Sim  reforou Grant. Est certa de que quer fazer isso mesmo?
Kyra suspirou.
	Tenho certeza absoluta.  Os irmos comearam a falar ao mesmo tempo.  Escutem  disse ela.  Estamos perto do Natal. Por que vocs no vm at aqui por alguns dias? Sei que esto ocupados, mas assim eu conheceria suas esposas, e responderia suas perguntas.
	Otimo  respondeu Grant rapidamente.  Ento decidiremos o que fazer.
	No  disse Kyra gentilmente, porm com firmeza.  No, Grant, no decidiremos nada. Eu j decidi. Mas eu estou disposta a tentar faz-los compreender por qu.
Quando Kyra desligou, os dois irmos permaneceram na linha.
	Algo est errado  disse Zach.
Grant concordou.
	Ela est confusa. Sente falta de papai.
	Sim.  Zach suspirou.  Bem, sabamos que se sentiria assim. Ela amava muito o velho. Escute, tenho um nmero de emergncia para encontrar Cade. Ligarei para ele.
	timo. Diga-lhe que nos encontre em Denver, no podemos deixar nossa irmzinha cometer um erro desses.
Zach e Eve, Grant e Cristie foram para Denver no mesmo dia. Estava nevando, o que era normal para aquela poca do ano. O que no era normal era o fato de Kyra estar aguardando por eles no aeroporto, e no o chofer.
Aps muitos beijos e abraos, Grant olhou em volta.
	Onde est Teffers?  inquiriu.
Kyra que estava ocupada cumprimentando as novas cunhadas deu-lhe um sorriso distrado.
	Ele se aposentou. No lhe contei?
	No. No, voc no nos contou. Quem contratou para substitu-lo?
	Ningum  disse Kyra. Apontou para os lindos brincos de prata que Cristie usava.  Voc os fez? So maravilhosos.
	Bem  continuou Grant.  No tem problema. Contrataremos um novo chofer enquanto estamos aqui.
	No  disse Kyra, a expresso sria.  No contrataro um novo chofer. Esto olhando para ele.
Zach e Grant se encararam horrorizados.
	Quer dizer, voc? Voc est dirigindo?  balbuciou Zach.
	Por que no? H anos tenho minha carteira de motorista.
	Bem, creio que no tem problema durante o vero, mas no inverno, nessas estradas...
	O Land Rover tem trao nas quatro rodas.
	Sim, mas...
	Oh, Grant!  Cristie passou um brao ao redor do pescoo do marido.  Deixe de ser to paternal! Kyra no  um beb.
	Claro que no  disse Zach, em tom conciliatrio.  Mas vocs no sabem o que  dirigir nessas estradas no inverno.
	Kyra cresceu aqui  disse Eve, tambm abraando o marido.  Assim como vocs.
Kyra sorriu. Sabia que adoraria suas cunhadas. Mas Grant e Zach trocaram olhares que diziam que talvez devessem ter deixado as esposas em casa.
Cade e Anglica chegaram no dia seguinte, exaustos e mal-humorados devido ao infindvel vo da Europa at Denver, que envolveu pelo menos doze conexes.
	Ns nos casamos durante a ltima  disse Cade com um sorriso maroto.  Bem, no tnhamos mais nada com que nos ocuparmos.  Anglica cutucou-o gentilmente.
	No sei como pude me apaixonar por este homem  disse  nova famlia.
	Provavelmente porque sou o nico cara que aguenta voc  disse Cade, rindo ainda mais.  E porque a amo tanto que sentiu pena de mim.
Todos riram, inclusive Kyra. Mas seu riso foi um pouco forado. Ela j amara assim antes, to profundamente que nada mais importava.
No. No era verdade. Seu respeito prprio fora sempre importante. Alm disso, no amara Antnio. Apenas achara que sim.
Repentinamente, para seu horror, seus olhos se encheram de lgrimas. Kyra enxugou-as com um leno, disfaradamente.
	Est ficando resfriada, Cisquinho?  perguntou Cade.
	Sim  fungou ela, sorrindo.
Mas no enganara as cunhadas.
	Kyra est infeliz  sussurrou Eve para Zach, naquela noite, quando se deitaram.
	Est deprimida  Cristie murmurou para Grant quase ao mesmo tempo.
	Ela est terrivelmente triste  disse Anglica a Cade.  E aposto que tem algo a ver com um homem.
. Na manh seguinte, aps abrirem os presentes de Natal, Eve, Cristie e Anglica se retiraram da biblioteca discretamente. Zach, Grant e Cade sentaram-se e olharam para Kyra.
	Bem  disse Grant.
	Bem  disse Zach.
Cade limpou a garganta.
Kyra suspirou.
	Tudo bem. Vou resumir a histria ao mximo. E o se guinte: odeio esta casa.
Foi como se houvesse dito que iria fugir de casa para trabalhar em um circo, tamanha a surpresa dos irmos.
	Odeia?  Grant balanou a cabea.  No seja tola, voc ama este lugar.
	Odeio  reafirmou Kyra pacientemente.  Sempre odiei. 
	Mas... voc nunca disse...
	Claro que no! Eu estava presa aqui. E depois, quando papai morreu, sei que vocs tinham essa feliz imagem de mim, esperando aqui por vocs, em frente  lareira como um cachorro fiel.
Cade franziu o cenho.
	Tudo bem, tudo bem. Ento no gosta da casa. Mas no acha que est sendo um pouco apressada ao vender todas as coisas do ve... de papai?
Kyra o encarou.
	Por qu?
	Por qu? Porque... vai se arrepender,  isso. Porque ele amava essas coisas, e elas so suas agora. No as quer como uma lembrana?
Kyra foi at a lareira e atiou o fogo.
	Na verdade, tenho ms lembranas o suficiente de papai para durar a vida toda. Espero que, ao reformar a casa, eu espante algumas delas, assim terei espao livre para as boas.
Seus irmos a encaravam em silncio. Finalmente, Zach perguntou:
	Quais ms lembranas?
Kyra olhou para eles.
	Oh, pelo amor de Deus, ser que so to cegos assim? Sei como papai os tratava mal!
	Mas ele a adorava  disse Grant.
	Sim, ele me adorava,  custa de vocs! E ele no teria me adorado tanto se eu o houvesse enfrentado e dito o que realmente pensava.
	Kyra  disse Cade, aproximando-se dela.  Irmzinha.
	No sou sua irmzinha, assim como nunca fui o anjo que papai imaginava. S fingia que era uma garotinha adorvel para ajudar a manter a paz entre vocs.  Olhou para os trs.  Bem, ele se foi agora. Eu o amava apesar de tudo, mas no preciso continuar fingindo, no ?  Colocou as mos nos quadris.  No me importo de ficar na casa, mas vou colocar um pouco de luz, calor e felicidade neste lugar horrvel e, se vocs tm alguma coisa contra isso, ao diabo com os trs!
Um silncio atnito caiu sobre os irmos. Ento, um por um, eles comearam a sorrir.
	Ora, ora, mas quem diria  disse Cade finalmente, e em um segundo todos estavam se abraando.
Quando se soltaram, Kyra sorria e chorava ao mesmo tempo. Cade limpou a garganta e disse:
	Bem, agora que estamos conversados, gostaria de pedir sua ajuda, Kyra.  sobre uma pequena discusso que tive com minha linda esposa.
Kyra encarou-o.
	Sobre o qu?
Ele sorriu como se a ideia fosse ridcula demais para ser colocado em palavras.
	Voc vai rir.
	Tente.
	Bem, Anglica colocou na cabea que voc se apaixonou por algum e acabou com o corao partido.
Kyra deu uma risada indignada.
	Isso  ridculo.
	Sim, foi o que eu disse a ela.
	No me apaixonei por ningum,
	Claro que no.
	E se houvesse... Se houvesse me apaixonado, certamente no o deixaria partir meu corao.
Cade anuiu.
	Foi o que eu disse a Anglica. Disse: minha irm no  boba. Nunca deixaria um cara qualquer mago-la.
	Pode apostar que no! Eu...
Kyra olhou para os irmos sorridentes. Era to bom t-los a seu lado! Mas ningum, nem mesmo eles, conseguia preencher o vazio deixado pela falta de Antnio em seu corao.
Sem aviso, um soluo escapou-lhe da garganta.
	Ei  disse Zach, surpreso.  Ei, mana...
Ela tentou virar-se, mas no a tempo de esconder as lgrimas dos irmos atnitos. Estava chorando, e parecia que no conseguiria parar to cedo.
Eles se aproximaram de Kyra mas, sem saber o que fazer, afastaram-se novamente.
Aps o que pareceu um longo, longo tempo, ela respirou fundo e encarou-os.
	Desculpem-me  disse, ao perceber as expresses chocadas dos irmos.  Eu no queria que isso acontecesse.
Grant tirou um leno branco do bolso da jaqueta e entregou-o a Kyra. Ela agradeceu, enxugou os olhos e sentou-se em uma poltrona, recomposta.
	Anglica estava certa  disse.  Eu me apaixonei. S que... no deu certo.
As perguntas choveram sobre sua cabea. Quem era o homem? Onde o conhecera? O que dera errado? Kyra ergueu a mo.
	No lhes darei detalhes. O que aconteceu, aconteceu. O principal  que me apaixonei por um homem que no me amava.
O rosto de Grant sombreou-se.
	O que quer dizer com ele no a amava?
	S isso. Ele... sentia-se atrado por mim, mas no conseguimos concordar sobre o que espervamos um do outro.
	O que ele queria? Dinheiro? Propriedades?  Zach fechou as mos com fora.  Quem  esse canalha, Kyra?
	No quero discutir isso, Zach. Aprecio sua preocupao, mas  minha vida. Eu me meti numa enrascada e farei o que for preciso para me recuperar.
	Sim.  O tom de voz de Cade era brincalho.  Voc realmente parece que est se recuperando, mana. No me admira que esteja to magra.
Kyra riu.
	Agora voc est falando como Stella. Eu no emagreci.
Mesmo. S tenho estado ocupada. Estou estudando e...
	Aquele cara se aproveitou de voc, Kyra?  inquiriu Grant. Quando Kyra cprou, ele soltou um palavro.  Droga! Diga-me quem  e eu o matarei!
	Eu dormi com ele  disse ela, os olhos enfrentando os do irmo.  Mas foi... foi uma deciso to minha quanto dele. Fiz isso porque o amava. Porque pensei que o amava.
Comeou a chorar novamente. Enterrou o rosto no leno e esperou at que pudesse falar novamente. Olhou para os irmos e sorriu debilmente.
	Amo vocs  disse.  E no precisam se preocupar comigo. Ficarei bem.
	Sim  disse Cade.
	Certo  concordou Zach.
	Est bem  Grant completou.
Todos na sala sabiam que era mentira.
Em abril, as primeiras flores primaveris comearam a aparecer e o vento frio do inverno mudou para uma suave brisa que carregava um fraco aroma de vegetao.
Grant ligou para os irmos. Conseguira um comprador para a Landon Enterprises.
	Quanto?  perguntou Cade.  No que faa diferena. Pelo que vi recentemente, o balano da empresa no melhorou muito.
	Sim  disse Zach.  Quanto? A empresa vai de mal a pior.
Grant limpou a garganta.
	Na verdade, ele ainda no fez uma oferta.
	Quer dizer que temos um comprador mas ainda no negociamos o preo  resumiu Zach.
Grant olhou para o homem alto e de ombros largos que olhava a rua pela janela de seu escritrio.
	Bem, ele disse que no far uma oferta a menos que seja para ns trs, pessoalmente. Escutem, que tal nos encontrarmos na empresa, em Denver, s dez da manh, na sexta? Podem conseguir isso?
	Tudo bem  disse Cade, aps uma pausa.
	Sim  disse Zach.  Sem problema. Assim poderemos ver Kyra novamente. Todas as vezes que falo com ela ao telefone, sinto que ainda no est bem.
Grant e Cade concordaram e desligaram. Grant levantou-se de sua cadeira e aproximou-se do homem  janela.
	Tudo certo. Meus irmos e eu estaremos em Denver na
prxima sexta pela manh. Tudo dar certo, seor.
Antnio Rodrigo Crdoba dei Rey olhou para a mo estendida de Grant. "Ele me mataria se soubesse o que fiz  irm dele", pensou, e por um momento sentiu como se uma faca houvesse perfurado seu corao. Mas ento lembrou-se do que Kyra fizera a ele, da amargura que sentia cada vez que pensava nela, e sorriu, apertando a mo de Grant.
	Tenho certeza disso.
Grant sorriu. Esperava mesmo que sim. Quanto mais cedo vendessem a Landon, mais felizes ficariam. Alm de tudo, havia algo em Antnio dei Rey que sugeria que ele era um homem que geralmente conseguia o que queria.
No tinha como saber que o que Antnio queria agora era apenas vingana.

CAPITULO XI

Antnio chegou cedo  reunio. Llgnorou a informao da embaraada recepcionista de que os Landon estavam para chegar e pediu para ser levado  sala da diretoria, onde a reunio aconteceria.
Era importante para seu plano que sempre tivesse uma vantagem, e nada melhor do que cumprimentar os irmos de Kyra em seu prprio territrio, em vez de ser cumprimentado por eles.
Antnio queria todas as vantagens que pudesse conseguir. Elas aumentavam o prazer que viria depois.
Surpreendeu-se ao notar a arquitetura fria e elaborada da sala de reunies. Esperava algo mais simples aps ter visto o escritrio de advocacia de Grant, em Nova York. Mas Grant tinha parceiros, que talvez no compartilhassem o gosto dos Landon para pretenso. Aquela fora feita para impressionar e at intimidar.
Mas Antnio no se impressionava facilmente, e no se lembrava da ltima vez em que se sentira intimidado. Na verdade, a sala teve um efeito oposto. F-lo lembrar-se, com clareza, da rejeio de Kyra a ele e a tudo que representava.
Seus lbios estreitaram-se, formando uma linha fina e perigosa. Quando ela o deixara, ficara consumido por uma raiva destruidora. Mas, com o passar do tempo, aquela raiva transformara-se. Sabia que estava l, como um veneno de ao lenta, e no havia nada que pudesse fazer para livrar-se disso.
At que um dia, um de seus advogados ofereceu-lhe a soluo sem sequer dar-se conta.
Durante uma reunio em Atlanta, Milton Chafee colocou uma pasta sobre a mesa dizendo que encontrara algo intrigante.
Havia uma companhia  venda com negcios em uma dzia de reas diferentes, desde manufaturao at cinema.
Antnio mal prestara ateno. No se encontrava to interessado em novas aventuras agora, e isso tambm era culpa de Kyra. Estava consumido em seu dio que tudo o mais parecia uma intruso.
	A companhia est negligenciada, Antnio. Parece que o dono original faleceu e seus herdeiros, os filhos, no querem sujar as mos com os negcios do pai.
Antnio tentara disfarar a impacincia.
	Qual  o resumo da histria, Milton?
Chaffee sorriu.
	Tudo bem. Escute, a companhia est  venda por um preo alto, mas tem mostrado srios problemas em vrias frentes. Uma companhia particular desse tamanho necessita de uma pessoa interessada  frente dos negcios, o que no  o caso dos herdeiros. Esto desesperados para vend-la, entende o que quero dizer?
	E da? Espera que o preo caia em alguns milhes?
	Meus contatos me disseram que os herdeiros baixariam o preo em mais que alguns milhes.  Chaffee sorriu.  E tambm dizem que, apesar da crise, a companhia est com timas perspectivas para o prximo ano nas reas de cinema e explorao de petrleo.
	Mas os donos atuais devem saber disso.
	Eles sequer vo ao escritrio da empresa, Antnio. Estou lhe dizendo, querem vend-la.
Era o tipo de negcio que atrairia Antnio. Mas isso era antes. Agora sabia que no queria negociar com tolos como os irmos que Chaffee estava descrevendo, homens nascidos na riqueza e poder que no sabiam como deviam sentir-se agradecidos por isso, enquanto outros sofriam tanto.
Levantou-se.
	Obrigado pela informao, Milton, mas no estou interessado.
	Antnio, podemos comprar a Landon Enterprises por uma pequena frao do que vale e...
	Landon Enterprises?  disse Antnio, empalidecendo.
	Sim. A base  no Colorado. Quer pelo menos escutar?
Antnio escutara. Ento pegara a pasta de Chaffee, e a levara para San Sebastian, para estudar melhor a situao.
Em poucos dias, decidiu o que faria, Kyra e seus irmos mimados teriam que se ajoelhar a seus ps.
O que aconteceria quando Kyra soubesse que o homem a quem tratara com tanto desprezo poderia salv-la ou arruin-la com uma simples assinatura?
Era um plano cruel. Mas o levaria adiante, mesmo sem orgulhar-se disso.
E agora l estava, naquela sala pretensiosa, pronto para encontrar-se com os que eleja apelidara de "os garotos mimados Landon".
Antnio franziu o cenho. Na verdade, o nico irmo que ele conhecera, Grant, no era como imaginara. Parecera agradvel e esperto, e tinha um aperto de mo que sugeria que fizera mais coisas na vida do que simplesmente tomar banhos de sol. Sua firma de advocacia era pequena, mas muito estvel, Antnio soubera por seus informantes.
	Antnio. Desculpem-nos por no estarmos aqui para receb-lo.
Antnio virou-se. Grant estava parado  porta com dois outros homens que tinham de ser os irmos. E havia uma mulher em p atrs deles.
Sentiu o corao disparar. Kyra, pensou, era Kyra... Mas no era Kyra, e sim uma educada secretria com um pequeno gravador nas mos.
Antnio balanou a cabea negativamente.
	Esta reunio tem de ser restrita  disse calmamente...
Os Landon o encararam, os olhos estreitados. Ento Grant anuiu e pediu  secretria que se retirasse.
	Tudo bem  disse.  Podemos resumir as preliminares e arquiv-las mais tarde.
Ele e os irmos se aproximaram da mesa.
	Antnio dei Rey, esses so meus irmos, Zach e Cade.
Os apertos de mo foram negligentes. Cade e Zach entreolharam-se. O que havia de errado com o homem? Havia pedido aquela reunio e agora parecia que preferiria estar em qualquer outro lugar no mundo do que ali.
Todos se sentaram em volta da enorme mesa de mogno. Grant limpou a garganta e tentou iniciar o assunto, mas logo foi interrompido por Antnio.
	Prefiro ir direto ao ponto  disse bruscamente. Ento, sem preliminares, fez sua oferta.
Houve um silncio mortal e ento os Landon comearam a rir.
	S pode estar brincando  disse Zach.
	Falo muito srio.
	Bem, ento a discusso est encerrada. No h a menor possibilidade de...
Antnio abriu sua pasta e jogou alguns papis sobre a mesa. Os irmos se entreolharam e pegaram os papis. Houve um longo silncio, e ento Cade encarou Antnio, o belo rosto branco de raiva.
	Que tipo de bobagem  essa, dei Rey?
	E exatamente o que est a, sehores  disse Antnio com frieza.  A Landon Enterprises deve dinheiro a vrios bancos. Infelizmente, todos eles resolveram cobrar os emprstimos ao mesmo tempo.
	No podem fazer isso  grunhiu Zach.
Antnio ergueu os ombros.
	Talvez sim, talvez no. Mas enquanto seus advogados e os deles discutem os detalhes, a notcia de que a Landon Enterprises est falida pode se espalhar.
	Isso  uma armadilha  disse Grant, mal contendo sua raiva.  Seu desgraado, sabe que no pode sair ileso dessa!
	S sei que vocs no conseguiro vender a companhia por um centavo sequer quando os rumores se espalharem. Antnio sorriu.  Minha oferta lhes parecer bem atraente quando isso acontecer, cavalheiros, mas a ela no estar mais de p.
Levantando-se, acrescentou:
	Estarei hospedado no Hilton at amanh, nesse horrio. Tm vinte e quatro horas para decidir.
Pegou a pasta e dirigiu-se  sada.
	Por qu?  perguntou Zach.  Diga-nos por qu, droga! 
Antnio encarou-o, o rosto sem expresso.
	Por que no?
Zach balanou a cabea.
	Parece at algum tipo de vingana.  isso, no ? Tinha negcios com meu pai no passado?  esse o motivo de estar fazendo isso?
Era, Antnio sabia, o momento perfeito. Ele aproveitou-o ao mximo, demorou alguns segundos para responder, olhando de um rosto furioso ao outro, e ento sorriu.
	Certifiquem-se de dizer a sua irm que Antnio Rodrigo Crdoba del Rey manda lembranas.
E saiu da sala, deixando a porta bater atrs de si.
Eles decidiram no contar nada a Kyra. Ela no estava envolvida nos negcios. Porque a arrastariam para o meio daquela sujeira toda?
Cade concordou. E quanto ao dinheiro... Eles no precisavam dele. J haviam concordado, meses atrs, que a venda iria para alguma caridade.
Grant disse que ambos estavam certos. Podiam at doar a Landon Enterprises, quem se importava? Era apenas o princpio da coisa, aquele Antnio dei Rey ter ido a seu escritrio em Nova York como se fosse um ser humano lcido e depois transformar-se na encarnao do mal.
Os irmos se encaravam mutuamente. Quanto quela besteira sobre Kyra... Como dei Rey a conhecera? Onde a teria conhecido? Seria ele o homem que...
No, no. Sua irmazinha nunca se apaixonaria por um canalha sem corao daqueles. O que quer que ele quis dizer com aquela frase, no deviam pensar nessa hiptese. Deviam permanecer resolutos em no contar nada a Kyra. Por que aborrec-la?
Aquela deciso durou at chegarem aos portes da manso. Assim que Grant abriu a porta, os trs entraram na casa como trs barras de dinamite.
Kyra estava no hall arrumando um vaso de flores.
	Ol  disse olhando para eles.  Como foi tudo? Conseguiram vender...
	Quem diabos  Antnio dei Rey?  exigiu Cade, enquanto Zach e Grant a encaravam com olhares pouco amistosos.
Kyra fitou-os sem entender.
	O qu?
- Ouviu muito bem!  Zach deu um passo  frente, os braos cruzados sobre o peito.  Qual sua relao com aquele canalha chamado Antnio dei Rey?
	No... No compreendo.
	 ele o nosso comprador. Ou gostaria de ser. Mas ns preferimos dar a companhia de graa a algum do que vend-la quele desgraado.
Kyra apoiou-se na beira de uma mesinha.
	Antnio quer comprar a Landon Enterprises?  perguntou trmula.
Os irmos se entreolharam com expresses desconfiadas. Antnio, ela chamou o canalha de Antnio!
	Quem  ele?  Cade inquiriu.  E como a conhece?
Kyra umedeceu os lbios. Ser que os irmos ouviam seu corao bater, disparado? Ser que viam suas pernas tremerem tanto que parecia que ia cair a qualquer momento?
	Antnio est... est aqui? Em Denver?
	Est no Hilton, esperando ansiosamente por nossa resposta, e mandou lembranas a voc.  Grant fixou o olhar nos olhos da irm.  E ns queremos saber por qu?
	Ele  um...  Kyra enfrentou desesperadamente os olhares furiosos dos irmos.   um conhecido, isso  tudo.
	Um conhecido?  Zach riu, e olhou para os irmos.  Um conhecido, ela disse. Ele nos odeia, nos diz para mandarmos um beijo e um abrao  nossa irmazinha, e voc diz que ...

	O que ele disse exatamente? Sobre mim?
	No foi o que ele disse. Foi o modo de dizer. Conheceu-o no cruzeiro pelo Caribe?
	Sim, foi l que o conheceu? E o que fez a ele? Porque no  necessrio ser um gnio para perceber que ele a odeia!
"V com calma", disse Kyra a si mesma. "V com calma. Respire fundo. Bom".
	Estamos esperando, Kyra. O que ele tem contra voc?
	Eu... suponho que... ns no gostamos muito um do outro  aventurou ela, com cautela.
	Bem  retorquiu Cade.  Ns j percebemos isso. Agora queremos saber o motivo desse dio. Kyra ergueu o queixo.
	No  de sua conta.
	Como, no  de nossa conta? Tudo sobre voc  de nossa conta. Papai se foi. Quem cuidar de voc se ns no cuidarmos?
	Eu cuidarei de mim mesma!
	Que tipo de resposta  essa?
	Uma resposta honesta.
	Escute, Cisquinho...
	Estou cansada de escutar! E no me chame de Cisquinho!
	Cade. Zach.  Grant aproximou-se e ps as mos nos ombros dos irmos.  Deixem-me conversar com ela a ss.
Eles respiraram fundo, encararam Kyra pela ltima vez e saram da sala. Grant esperou at que a porta se fechasse e s ento, virou-se para Kyra com um sorriso que f-la desejar esgan-lo.
	Kyra, querida...
	Oh, pelo amor de Deus, Grant!  Kyra colocou as mos na cintura.  No comece a me tratar como se eu tivesse apenas cinco anos de idade! E no desperdice seu flego. No lhe contarei nada.
	Certamente tenho o direito de lhe perguntar se esse homem  perigoso para voc  disse ele, em voz cortante.
	No  respondeu Kyra.  Ele no  perigoso.
	Mas voc... se envolveu com ele?
   Ela assentiu.
	Sim.
Grant assentiu tambm.
	Foi ele, no foi?
Ela, entendendo imediatamente o que ele quis dizer, suspirou profunda e longamente.
	Sim. Foi ele.
Viu as mos de Grant se fecharem com tanta fora que os ns dos dedos embranqueceram. Segurou-o pelo brao.
	Quero que voc fique fora disso  disse ela.
	Ficar fora? Seu amigo nos incluiu nessa histria.
	Antnio est... Est tentando se vingar de mim, e usando vocs. Sou eu quem deve resolver esse problema.
	V-lo, quer dizer?  Grant balanou a cabea.  De modo algum!
	No seja ridculo! No pode me dizer o que devo fazer.
Grant olhou-a com firmeza.
	Eu a probo de aproximar-se de Antnio dei Rey.
	Voc me probe?
	Sim. Fui claro, Kyra? No se aproxime dele.
Kyra forou um sorriso.
	Tudo bem.
	No diga somente "tudo bem". Quero que entenda.
	E tenho escolha? No me aproximarei dele, Grant. Certo?
Grant anuiu.
	Certo  disse, abraando-a.  Sabemos o que  melhor para voc maninha. Ns a amamos.
	Sei disso.  Kyra afastou-se.  Bem, tudo isso foi terrivelmente inconveniente. Importa-se se eu no almoar?
	Claro que no. V para o seu quarto e descance por algumas horas. E no se preocupe com nada. Ns cuidaremos desse sujeito para voc.
Kyra sorriu.
	Sei que sim.
Jogou um beijo para o irmo, saiu e fechou a porta. Sorriu candidamente para Cade e Zach e subiu as escadas.
Assim que ouviu a porta da biblioteca fechar-se, desceu as escadas correndo, pegou uma jaqueta no hall e voou at a garagem.
Foi fcil descobrir o nmero da sute de Antnio. Kyra usou um truque que aprendera em um livro policial. Escreveu o nome em um envelope, fechou-o e pediu que fosse entregue ao senor dei Rey. Quando o recepcionista virou-se e colocou-o na caixa postal de Antnio, Kyra guardou o nmero.
Sua boca estava seca quando bateu na porta do quarto de Antnio. Seu corao estava disparado tambm. De raiva, pensou ela. E pensar que desperdiara vrios momentos de sua vida pensando que amava aquele homem! Pensar que desejara estar novamente na ilha, com ele...
A porta foi aberta.
	Sim?  disse Antnio com frieza.  O que ? No pedi nada...
Kyra viu os olhos dele se sombrearem quando a reconheceu, e comeou a tremer. Como podia sentir-se daquele modo  simples viso daqueles olhos cor de safira?
Respirou profundamente.
	Ol, Antnio. Posso entrar?
	Claro.  Ela percebeu que ele estava tenso. Otimo. Pegara-o desprevenido, aquilo dava-lhe uma vantagem.  Entre.
Eu... no a estava esperando, Kyra.
	Sei disso.  Esperou at que ele fechasse a porta e ento encarou-o, os olhos frios.  Pensou que poderia humilhar meus irmos e que eu no faria nada, no ?
Antnio dirigiu-se ao pequeno bar do outro lado do aposento. Pegou uma garrafa de brandy de uma bandeja e serviu-se de um drinque. Suas mos tremiam. S podia torcer para que ela no notasse. Como pde ficar to abalado com a simples presena de Kyra? Estava ainda mais linda do que ele se lembrava, mais linda do que em seus sonhos.
Respirou fundo.
	Gostaria de um drinque?
	No vim at aqui para uma conversa social, Antnio.  Aproximou-se dele, o rosto pequeno e elegante erguido desafiadoramente.  Vim para lhe dizer que seu plano vil, no dar certo. No pode usar meus irmos para vingar-se de mim.
	Eles lhe explicaram a situao?
	Disseram-me o suficiente. Sei que quer comprar a empresa por uma ninharia. O que eu no consigo entender  o porqu disso tudo.
Ele tomou um gole de bebida e sorriu.
	Acho que entende, sim.
	No. O que espera ganhar com isso?
Ele sorriu desagradavelmente.
	Est me implorando para no destruir seus irmos, no ?
Kyra riu.
	Pareo estar implorando?
Era verdade, ela no parecia estar a seus ps. Mas  claro que fora at l para isso, para implorar que ele no arruinasse seus irmos, talvez at ela mesma.
	Ainda est assim to furioso por no ter ganho, Antnio? Furioso o suficiente para comportar-se como uma criana mimada?
A expresso dele sombreou-se.
	Eu, uma criana mimada?
	No fiz o que voc queria e ento decidiu dar o troco. No  isso?
Antnio bateu o copo no tampo do bar e aproximou-se dela, os olhos faiscando.
	Um de ns  mimado, Kyra, mas certamente no sou eu!
	Oh, vamos l!  Kyra encarou-o.  Queria que eu deixasse voc controlar minha vida e eu disse no. Ento voc maquinou esse plano, um modo de controlar a vida de meus irmos.
	No  uma questo de controle.  apenas uma questo de aprender que as expectativas de algum no so sempre o que queremos que sejam.
	Bem, concordo com voc. Sabe, no pode arruinar meus irmos. Eles no precisam do dinheiro da Landon.  Cruzou os braos.  Zach, Cade e Grant so completamente independentes. O dinheiro da venda da companhia ir todo para fundos de caridade.
	Caridade?
Ela sorriu satisfeita ante a expresso confusa de Antnio.
	 o modo deles de celebrarem sua independncia.
	No entendo.
	No. Voc no entenderia. E um tirano tambm, dominador, sem corao...
Parou de falar abruptamente quando ele a segurou pelos ombros.
	Cuidado, Kyra. No permitirei que me insulte.
	Veio at Denver para me insultar! Para me humilhar!
Pelo que sei, isso me d o direito de dizer o que quero. Este  um pas livre, Antnio, e no a sua maldita ilha. No pode bancar o dita...
A boca dele cobriu a sua com um beijo duro e raivoso, uma prova da necessidade dele de domin-la. Mas, em se tratando de desejo, Antnio sempre a dominava. Sempre fora vitorioso nos jogos ntimos porque, quando tomava, ele tambm retribua.
No foi diferente agora. O beijo estava se modificando, de duro e raivoso para doce e carinhoso.
	Querida  sussurrou ele contra sua boca entreaberta ou seria apenas o desejo dela de ouvir aquela palavra? No importava. Ela no pde controlar sua resposta. No pde impedir os braos de enlaarem o pescoo de Antnio, seu corao de colar-se ao dele...
Separaram-se, ambos respirando pesadamente e corados de emoo. Antnio engoliu em seco, virou-se e voltou para apanhar o copo no bar. De um s gole, bebeu o que restava do brandy.
	No vai funcionar  disse ele, em tom frio.  Esse teatrinho ... divertido, mas no me far mudar de ideia, Kyra. Seus irmos aceitaro minha oferta de compra ou a companhia ir  falncia. A deciso  deles.
Kyra permaneceu ali, em p, encarando-o, aquele rosto lindo e orgulhoso, e de repente voou para cima dele. Surpreso, Antnio virou-se e segurou os punhos que batiam em seu peito.
	Seu canalha!  gritou ela.  Como pode fazer isso? No est se importando se eu fico com voc ou no. No me ama. Fui eu quem fez o papel de boba, apaixonando-me por um homem que no se importa nem um pouco comigo! Fui eu a idiota que tentou explicar tudo um milho de vezes!
	Explicar o qu? Que me amava?  Antnio imobilizou suas mos contra o trax de ao.  No minta para mim, Kyra. Eu lhe ofereci meu corao, meu nome e tudo que voc conseguia pensar era em suas perspectivas e em sua famlia de sangue azul que jamais aceitaria em seu seio um homem como eu!
	Est louco? Por que minha famlia no o aceitaria? Voc  corajoso e gentil e generoso e...
Tentou parar o fluxo de elogios, mas j era tarde demais. Os olhos de Antnio escureceram.
	Pensa mesmo que sou tudo isso?  perguntou suavemente.
	No  mentiu Kyra furiosamente, tentando soltar as mos dos dedos de Antnio.  Claro que no! Solte-me, droga! Sempre achei que meu pai fosse impossvel, tentando moldar-me  imagem do que ele desejava que eu fosse, mas voc  ainda pior! Agora est me acusando de... de vir aqui para faz-lo mudar de ideia.
	Aquele beijo, ento, foi espontneo?
	E claro que sim! No que eu no me arrependa...
Antnio beijou-a novamente, os lbios movendo-se gentilmente sobre os dela. Kyra ficou tensa, dizendo a si mesma que no deveria responder, mas era como tentar impedir o sol de nascer pela manh. Deu um pequeno soluo e se apoiou contra Antnio, as mos agarrando sua camisa.
Ele a fitou quando parou de beij-la. Gentilmente acariciou seu rosto.
	O que quer dizer isso? Ser forada a moldar-se a uma imagem?
	No importa. Oh, importa sim!  o que meu pai costumava fazer. E  o que voc queria fazer, dizendo-me que s me aceitaria se eu concordasse em... em obedecer s suas regras e deix-lo tratar-me como... como uma orqudea de estufa!
Os olhos de Antnio se estreitaram.
	Nunca lhe pedi que fizesse isso, querida. Por que o faria, quando sua personalidade batalhadora  to importante para mim?
	Bem, o que estava me pedindo, ento?
	Acabei de dizer-lhe. Estava lhe pedindo para ser minha esposa, apesar das diferenas em nossa educao.
Kyra ficou imvel. Ento fora aquilo que ele dissera, pensou, e seu corao pareceu parar de bater por um segundo.
	Quer dizer... Quer dizer que estava me pedindo em casamento?
Antnio fitou-a com seriedade.
	Sim.
	Oh, Antnio, eu no... Pensei que...
Ele mergulhou as mos em seus cabelos sedosos e forou-a olhar em seus olhos.
	E o que voc disse h pouco...  Respirou fundo.  Disse mesmo que me ama?
Kyra sentiu lgrimas encherem-lhe os olhos, lgrimas de felicidade.
	Seu tolo  disse com suavidade.  No apenas o amo, adoro voc! Mas no podia concordar em ser um cachorrinho obediente. Achei que era o que voc queria.
Antnio riu e abraou-a.
	Um cachorrinho obediente? Nunca! E voc sequer concordaria em ser um!
Ele apertou-a nos braos e beijou-a novamente, longa e profundamente, e ento, sorriu.
	Ento  disse rapidamente , concorda em se tornar a Sehora Antnio dei Rey?
Kyra retribuiu o sorriso.
	Concordo em me chamar a Sehora Kyra del Rey. Si.
	Amar-me pelo resto de sua vida?
	S se voc fizer a mesma promessa.
	Si, mi amor. Eu a amarei at o fim dos tempos, mas no pode nunca transformar-se em um cachorrinho. Eu no suportaria isso.
Kyra riu e enlaou-o pelo pescoo.
	Tenho de avis-lo, meus irmos precisaro de uma boa dose de conversa para acalmarem-se. Esto um pouco aborrecidos com a ideia de que voc se aproveitou de mim.
Antnio riu, tambm.
	Explicarei a eles que voc no me deu escolha alguma, que me arrastou para sua cama.
Inclinou-se e beijou-a novamente, at que os lbios dela ficaram docemente inchados.
	Sabe o que devamos fazer, querida? Temos de falar com seus irmos e assegurar-lhes que no sou um pirata que veio tirar-lhes a companhia. E que queremos marcar uma data para o casamento.  Sorriu feliz.  Isso ir acalm-los, S?
Kyra prendeu a respirao quando Antnio pegou-a no colo.
	Mas primeiro  disse ele, a voz rouca.  Primeiro, vamos compensar o tempo que desperdiamos. Isso vai de encontro s suas expectativas, mi amor?
A resposta de Kyra estava em seu beijo.

EPLOGO

Os raios da manh passavam pelas janelas da manso dos Landon, derramando um brilho dourado sobre as paredes brancas e o colorido dos carpetes que cobriam o cho de carvalho.
No quarto que ocupara quando criana, Cade Landon enlaava a mulher a seu lado. Ela suspirou e aconchegou-se a ele, os cachos de tom acobreado roando seu rosto.
Cade abriu os olhos. Ficou deitado, imvel, pensativo.
Fazia muito tempo que no acordava naquele quarto. Por um breve momento, velhas emoes de infncia dominaram sua mente: a raiva contida, a infelicidade, o desespero.
Ento ele notou Anglica a seu lado, o calor e o perfume dela, e as lembranas desapareceram. Cuidadosamente, para no acord-la, Cade apoiou-se no cotovelo e olhou para ela.
Sorriu. Era to linda! To maravilhosa! E era sua... Sua parceira, companheira, amante...Sua esposa!
Gentilmente, afagou os cabelos acobreados. Cade ainda se maravilhava, no apenas por hav-la encontrado, mas pelo modo como ela mudara sua vida. At Anglica aparecer, seus prazeres se limitavam aos lugares exticos que conhecia e as mulheres lindas que encontrava nesses lugares.
Agora, sua esposa era todo o prazer de que precisava. No podia imaginar a vida sem ela, sem sua doura e sua paixo. E tambm seu temperamento difcil, pensou, sorrindo ainda mais.
 Bom dia.
Os lindos olhos verdes de Anglica estavam abertos e seus lbios se curvavam em um sorriso gentil. Um sentimento to potente apoderou-se de Cade, e ele abraou a esposa, beijando-a com sofreguido.
Aps um longo momento, ele se afastou. As faces de Anglica estavam coradas e ela sorriu, enlaando-o pelo pescoo.
	Ah!  suspirou ela.  Que modo maravilhoso de iniciar o dia.
Cade sorriu.
	Sou melhor que um despertador, no sou?
Ela riu, afastando uma mecha de cabelos do rosto do marido e fazendo-o am-la ainda mais.
	Se no fosse meu marido, eu o lanaria no mercado.
	Angel, tenho pensado...  Cade hesitou, respirando fundo. 	Sabe aquele projeto do Kuwait?
Anglica suspirou, brincalhona.
	Isso  o que acontece com um velho casal. Aqui estou, nos braos de meu marido, e ele s pensa em negcios...
Cade beijou-a, interrompendo-a.
	E se desistssemos do Kuwait e aceitssemos a oferta no Alasca?
	Para voc dirigir aquela companhia? Mas... Mas teramos de ficar por l, Cade, e voc nunca quis isso.
	Oh, no sei. Pode ser bom nos ajeitarmos, construirmos uma casa... Sabe, criar razes.
Os olhos de Anglica se arregalaram.
	Voc? Criar razes?
	Bem, sim. Um cara tem de criar razes antes de comear uma famlia, no ?  Ele riu da expresso surpresa da esposa.
	Esquea. Foi s uma ideia louca e...
	Foi uma ideia maravilhosa  disse Anglica, a voz um pouco trmula.
Cade sentiu o corao acelerar.
	Acha mesmo?
	Seu bobo! Claro que acho! Amo voc, Cade Landon. O que mais eu poderia querer do que criar razes com voc e ter seus filhos?
Cade beijou-a, gentilmente no incio e ento mais apaixonadamente.
	Alguma objeo quanto a comearmos esse novo projeto agora mesmo?  perguntou ele, sorrindo.
Anglica retribuiu o sorriso.
	Tenho certeza de que no haveria momento mais propcio 	sussurrou ela, abraando-o.
Cade no esperou que ela insistisse.
Sem dvida, pensou, era o homem mais feliz e sortudo do mundo.
No fim do corredor, no quarto que ele um dia considerara uma cela de priso, Grant Landon despertou de um sono profundo e sem sonhos e estendeu a mo para a mulher. A cama estava vazia. Grant sentou-se de um pulo, o corao disparado, e ento viu-a em p em frente  janela, enrolada em um velho robe de flanela dele. Os cabelos negros escorriam pelas costas como seda, brilhantes e volumosos.
Grant jogou as cobertas para longe e levantou-se.
	Querida?
Cristie virou-se, o rosto iluminando-se de felicidade ao v-lo.
	Bom dia!  disse.  Desculpe-me por t-lo acordado.
	Querida?  Grant estendeu as mos em sua direo.  Est se sentindo bem?
Ela riu e segurou as mos dele.
	Claro.
	Tem certeza? Talvez no devesse acordar to cedo. Precisa dormir, sabe. E est descala. Pode pegar um resfriado.
	Grant.  Cristie aproximou-se do marido e sorriu.  No estou doente, querido. Estou grvida.
	Exatamente. Est grvida e...
	E estou tima.
	Tem certeza? Talvez devesse perguntar ao doutor se...
	J perguntei  disse Cristie com gentileza.  Fiz todas as perguntas que voc queria e depois voc perguntou-as novamente e as respostas foram sempre as mesmas.  Ela sorriu.
	Estou com uma sade de ferro, Grant. No h nada com o que se preocupar.
Grant franziu o cenho.
	Claro, mas...
	Na verdade, nunca me senti to bem.
	Tudo bem, mas...
	As mulheres tm bebs desde o incio do mundo, Grant. Ns no inventamos isso.
Ele suspirou.
	Sei disso.  Abraou-a e apertou-a contra o peito.   que a amo tanto!
	E eu amo voc  disse Cristie, fechando os olhos e pousando a cabea no peito do marido, agradecida pela batida segura de seu corao.  Acho que nunca saber quanto.
Grant afastou-a e olhou-a nos olhos.
	Voc  tudo para mim, Cristie  sussurrou.  Quando penso em como minha vida era vazia antes de conhec-la...
Ela sorriu.
	Lembre-se disso na prxima vez em que Annie decidir fingir que seu par de mocassins favorito  brinquedo de cachorro.
Grant suspirou, mas seus olhos brilhavam de malcia.
	Eu mereo! Casei-me com uma mulher que insistiu para que seu gato e seu cachorro estivessem presentes  cerimnia...
	Eles se comportaram bem  brincou Cristie, tentando ficar sria.  At o padre elogiou-os.
Grant beijou a mulher longamente.
	Adoro voc  murmurou contra sua boca macia.
	Espero que o nosso filho se parea com o pai  disse ela, sorrindo.
	Que coincidncia incrvel! Eu estava pensando exatamente sobre como seria bom se nossa filha se parecesse com a me.
O sorriso de Cristie era misterioso.
	Grant? E se ns dois tivssemos nosso desejo realizado?
 Tudo bem, amor. Uma garotinha desta vez, um garotinho da prxima.
	Que tal ambos desta vez?
Grant pareceu confuso.
	Ambos? Mas como...  Arregalou os olhos.  Oh, meu Deus Cristie! Quer dizer que...
	Vamos ter gmeos  disse ela, feliz.  Um menino e uma menina. O mdico me disse ontem.
	Gmeos?  gaguejou Grant.  Gmeos?
	Sim! Dois bebs querido. Dois beros. Dois carrinhos. Duas mamadas noturnas...
	Isso  maravilhoso!  O rosto de Grant estava radiante de alegria.  Oh, hoje  um grande dia. Primeiro o casamento de Kyra, e agora, essa notcia espetacular!
Cristie enlaou-o pelo pescoo.
Sabe  disse com suavidade.  Ns podamos cornear a celebrar agora mesmo, s ns dois...	
Grant leu a mensagem velada nos olhos cor de violeta. A ideia de fazer amor com ela fez seu corpo tremer por antecipao, mas ele hesitou. Cristie, pressentindo a hesitao, suspirou e virou os olhos.
	No sou de vidro, Grant.
	Sei disso. Mas... Tem certeza?
Ela riu, feliz como nunca.
	Absoluta. Sou saudvel. Sou sexy. Ento, se realmente quer que eu fique feliz...
Rindo, Grant pegou-a no colo.
	Amor da minha vida  sussurrou, enquanto a colocava na cama. E, ao deitar-se a seu lado, ele sabia sem sombra de dvida, que era o homem mais feliz e sortudo do mundo.
No quarto em frente, Zach Landon beijou gentilmente sua esposa adormecida. Ento, com cuidado, afastou as cobertas, levantou-se da cama e foi at o banheiro na ponta dos ps.
Teria de acord-la em breve, pensou, entrando no chuveiro, mas no momento queria que Eve descansasse o mximo possvel.
Ela no se sentia bem, havia duas semanas. Ele estava muito preocupado.
Zach sentiu um frio na barriga. S de pensar que algo pudesse acontecer a Eve, ficava em pnico. Amava-a. Ela era sua vida. Era tudo o que sempre quisera e sonhara e no havia um momento do dia no qual ele no pensasse no milagre do amor que compartilhavam.
Na noite anterior, haviam chegado tarde na manso pois houvera uma reunio de ltima hora com o pessoal do prximo filme da Triad.
No deviam ter comparecido quela reunio, no com Eve se sentindo mal como estava. Mas sabia que no teria adiantado. Sua esposa era a pessoa mais cabea-dura que conhecia. No se podia "dizer-lhe" o que fazer. Nem sendo seu marido... Mas, a partir de hoje, pensou ele, ela teria de obedec-lo, mesmo se aquilo significasse que brigariam.
Desligou o chuveiro e enrolou-se em uma toalha, franzindo o cenho.
Houvera uma epidemia em Los Angeles, uma daquelas gripes que derrubavam a pessoa por uns dois dias. Ele pegara essa gripe mas logo se recuperara. Depois Eve cara doente, mas ela parecia no conseguir se recuperar. Ele implorara para que fosse ao mdico, mas Eve desprezara a ideia.
	Verdade, querido  insistira.  No estou doente.  s o vrus. Logo estarei melhor, voc ver.
Bem, no melhorara. S que era estranho, ela no parecia doente, no durante o dia. Tem de haver algo errado quando a mulher que se ama acorda todos os dias sentindo-se nauseada e miservel...
Zach ficou imvel.
Nauseada? Vomitando? Todas as manhs?
Seu corao disparou.
	Grvida  sussurrou. Abriu a porta correndo, aproximou-se da cama e ajoelhou-se ao lado da mulher.
Eve estava acordada, sentada contra os travesseiros. Seu rosto estava plido, mas ela sorria.
	A est voc  falou sorrindo.  Senti sua falta.
Zach observou o rosto lindo da esposa.
	Eve? Eve, querida, voc est bem?
Ela anuiu.
	Eu... acho que estou.
	Sem nusea?
	. Parece que passou.
	No vai vomitar?
Eve sorriu, hesitante.
	Acho que no.
	Oh!  Ele balanou a cabea e forou um sorriso. Que tolo era! Sua mulher estivera doente por algumas semanas e ele demorara tanto para concluir que talvez, s talvez, fosse enjoo matinal. E quando chegara quela concluso, descobrira que no era nada!
No sabia se chorava ou se ria.
Eve inclinou-se na direo dele e acariciou seus cabelos.
	Voc no parece muito feliz  disse com suavidade.
	Claro que estou feliz  disse ele rapidamente, apertando a mo dela com mais fora.  Eu queria morrer por saber que voc estava com dores, querida, e que eu no podia fazer nada a respeito. E s que...
	Que o qu?
Ele ergueu os ombros.
	Esquea.
	Vamos l. Diga-me o que ia dizer.
Zach limpou a garganta.
	Bem, pode soar ridculo, querida... mas s agora me ocorreu que... Bem, pensei que talvez a razo pela qual se sentia to mal era porque... porque estava grvida.
Um sorriso curvou os lbios macios de Eve.
	E estou.
	Eu disse que era ridculo, mas...  Zach encarou-a, confuso.  O que disse?
	Disse que vamos ter um nen.  Eve riu com suavidade da expresso assustada do marido.  No  incrvel?
	Um beb? Voc e eu?  Sorrindo de felicidade, Zach enlaou-a.  Oh, meu amor! Tem certeza?
Eve balanou a cabea, o rosto enterrado no ombro dele.
	Absoluta. No ano que vem, nessa poca, voc j ser papai.
Zach sentiu um n na garganta. Queria dizer  esposa o quanto estava feliz, mas no conseguiu dizer nada. Em vez disso, pegou o rosto dela entre as mos e deu-lhe um longo e doce beijo.
	Amo voc  murmurou ele.
Eve riu, apesar de ter os olhos banhados em lgrimas de felicidade.
	No  maravilhoso?
	Maravilhoso!  repetiu com suavidade, ao beij-la novamente.
Ao meio dia, quando o sol era um globo dourado no meio de um cu incrivelmente azul, um quarteto de cordas iniciou os acordes da Marcha Nupcial e Kyra Landon apareceu no terrao, linda e radiante em um vestido delicado cor de marfim. Tinha mangas compridas e uma saia longa e esvoaante enfeitada com minsculas rosas de cetim. O decote era baixo o suficiente para ser o perfeito bero para o colar de brilhantes que Antnio dera  noiva como presente de casamento.
O brilho do colar, dissera Antnio, no era to ofuscante quanto o brilho dos olhos dela.
Antnio, lindo e orgulhoso em um smoking preto, esperava por ela no altar decorado com tulipas brancas e rosas. A viso dele tirou o flego de Kyra. Os cabelos negros estavam penteados para trs, o rosto perfeito em evidncia e os olhos, brilhantes de amor, estavam mais azuis que o cu da primavera.
Rodeada pelos irmos, Kyra desceu os degraus e caminhou vagarosamente pela passagem coberta com ptalas de rosa. Quando chegaram ao altar, Cade, Zach e Grant beijaram a irm adorada e deixaram-na ao lado do futuro marido.
As esposas em p no altar tentaram no chorar mas era difcil controlar-se ante a viso da noiva radiante e do noivo trocando os votos matrimoniais. Quando a cerimnia terminou e o noivo levantou o vu da noiva e beijou-a com amor, poucas pessoas tinham os olhos secos.
	Amo voc de todo o corao, Tnio  sussurrou Kyra.  Passarei minha vida toda fazendo-o feliz.
	Kyra, mia querida  disse Antnio, segurando o rosto da amada com delicadeza.  No poderia me fazer mais feliz do que neste momento. Voc  minha e eu sou seu, para todo o sempre.
Kyra beijou o marido. Era a mulher mais feliz de todo o mundo, pensou, e de repente sentiu um n na garganta.
"Se pelo menos papai estivesse aqui..."
Olhou para os irmos e naquele instante, soube que o que via nos olhos deles estava tambm em seu corao.
Meses atrs, parecera que Charles Landon deixara uma herana de raiva e tristeza, mas o poder do amor mudara aquilo.
A herana do pai acabara sendo de felicidade e amor, o maior presente que um pai podia deixar aos filhos.
Talvez houvesse um convidado inesperado naquele casamento, nesse dia maravilhoso.
Pois para Cade, Grant, Zach e Kyra, o pai podia estar olhando para eles, vendo a alegria nos rostos de seus filhos e sorrindo tambm.


FIM
